domingo, 27 de março de 2016

Aula de história - Dorrit Harazim

Aula de história

É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma

Desde que se instalou na Casa Branca em janeiro de 2009, o presidente Barack Obama evita levar as filhas Malia e Sasha, hoje adolescentes de 17 e 14 anos, em suas viagens oficiais mundo afora. Abriu exceção para a visita desta semana a Cuba e à Argentina por dois motivos.

Primeiro, ela coincide com o recesso de primavera do ano letivo americano, portanto, as meninas não perderiam aulas. Segundo e sobretudo, o roteiro serviria de valiosa aula de história para as adolescentes, nos moldes da impactante visita à Africa do Sul de Nelson Mandela ocorrida três anos atrás.

Para Obama, que já estivera em Robben Island anteriormente, levar as filhas à cela número 5, onde o líder anti-apartheid esteve confinado por 18 anos, foi imperativo. “Eu sabia que seria uma experiência profunda. Elas começaram a compreender a força do espírito de liberdade de tantos que ali ficaram presos e não se dobraram”, comentou depois com estudantes da Universidade da Cidade do Cabo.

Em Cuba, as meninas terão presenciado um naco de história, ao vivo, à qual só darão o devido peso mais adiante na vida. Talvez nem tenham percebido a força e tato com que o pai, comunicador nato de 54 anos, ajudou o líder comunista Raúl Castro, de 84, a sobreviver à sua primeira entrevista coletiva de estilo brutalmente democrático. “Obrigado”, disse-lhe o visitante ao final, bem baixinho, ciente da indigesta provação pela qual passara o anfitrião.

É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma, pois a engrenagem de reaproximação entre os dois países colocada em marcha pelo pai não tem volta. Qual novo país e sociedade disso resultará as filhas haverão de acompanhar com interesse, orgulho, curiosidade e talvez afeto especial.

Mas o caso do longo ostracismo imposto pelos Estados Unidos a Cuba foi tão singular e neurastênico que não serve de exemplo para nada. O breve contato com a história da Argentina, ao contrário, pode ter sido didático para as meninas. Lição dura, realista e oportuna porque a ingerência dos EUA na política daquele país corre o risco de ser repetida por futuros ocupantes da Casa Branca em outras partes do mundo — basta ouvir o que dizem em seus discursos de campanha os atuais candidatos republicanos à sucessão de Obama.

Até hoje, 43% dos argentinos têm opinião desfavorável sobre os EUA — o maior índice de rejeição entre os países das Américas ouvidos pelo Centro de Pesquisa Pew, de Washington. Entre eles está o Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, que publicou uma carta aberta a Obama instando-o a adiar sua viagem desta semana, por considerá-la um gesto de provocação.

Isso porque a visita oficial de dois dias coincidiu com uma das datas mais traumáticas da história do país: o 40 º aniversário do golpe militar de 24 de março de 1976, que deu início à chamada “Guerra Suja”, incentivada pelo governo americano da época. Foram sete anos de assassinatos premeditados e sistemáticos, resultando em cerca de 13 mil mortes/desaparecimentos, segundo estimativas oficiais, ou perto de 30 mil, segundo grupos de direitos humanos.

São incontáveis as feridas ainda não cicatrizadas no país, e Obama optou por encará-las. “Sei que existem polêmicas sobre a política dos Estados Unidos naqueles dias sombrios. As democracias devem saber reconhecer quando não cumprem os ideais que defendem, quando tardam em defender os direitos humanos, e foi o [nosso] caso na Argentina... Temos a responsabilidade de enfrentar o passado com honestidade e transparência”, discursou no Parque de La Memória, memorial erguido sobre o Rio da Prata em homenagem aos mortos da ditadura.

Não foram palavras apenas. Junto, ele fez o anúncio mais precioso para vítimas, pesquisadores e cidadãos comuns com direito à história do seu país: o governo Obama vai tornar públicos, pela primeira vez, uma montanha de documentos secretos de FBI, CIA, Departamento de Defesa e outras agências de inteligência relacionadas à ditadura argentina.

Um primeiro lote de 4.700 documentos já havia sido liberado em 2002, porém referia-se apenas a material cedido pelo Departamento de Estado. Mesmo esses já são bastante comprometedores para Henry Kissinger, à época secretário de Estado do governo Gerald Ford.

Dois dias após o golpe, por exemplo, William Rogers, seu secretário-assistente para a América Latina, alertou-o para o fato de que os generais fariam “um esforço considerável para envolver os EUA”. Kissinger , segundo o memorando, responde “Sim, mas é do nosso interesse”. Rogers recomenda que “por ora não devemos nos apressar em abraçar esse novo regime” porque “devemos prever uma repressão de grande porte, provavelmente com grande derramamento de sangue”. Ainda assim, Kissinger deixa clara a sua preferência: “...Eles vão precisar de um pouco de encorajamento… quero encorajá-los”.

Em outro memorando, Kissinger dá um conselho cirúrgico ao chanceler argentino César Guzzetti: “Se há coisas por fazer, que sejam feitas rapidamente. Mas vocês devem voltar a procedimentos normais rapidamente… Queremos que vocês tenham êxito…”

Os documentos agora liberados podem conter informações críticas para avaliar melhor o que os EUA sabiam, quem e quando souberam e o quanto ajudaram a ditadura mais repressiva da América Latina.

Mas Obama poderá contar às filhas o capítulo seguinte, mais virtuoso, e ilustrar que, para fazer história, basta querer. Nove meses depois do golpe argentino, assumiu a Casa Branca o democrata Jimmy Carter, sulista tido como caipira e despreparado. Pois deve-se a ele, exclusivamente, o desmonte do apoio a qualquer ditadura e a persistente implantação de uma politica de defesa de direitos humanos.

O primeiro encontro de sua enviada, Patricia Derian, com o almirante Emilio Massera, um dos algozes mais ferozes do regime argentino, ocorreu na Escola Naval de Buenos Aires, centro de detenção onde estima-se que cinco mil pessoas foram mortas. “É possível que, enquanto conversamos, pessoas estejam sendo torturadas aqui?”, foi a pergunta inicial de Derian.

Malia e Sasha tiveram do que se orgulhar também na Argentina.

Dorrit Harazim é jornalista

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/aula-de-historia-18960689

quinta-feira, 24 de março de 2016

Narciso



Liniers: http://www.porliniers.com/



Caravaggio: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caravaggio

"Sampa", de Caetano Veloso:

"[...]Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio
o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda
Não é mesmo velho
Nada do que não era antes
quando não somos mutantes[...]"



Questões:

Nos três casos, a figura mitológica do imaginário greco-romano de Narciso é evocada. Com base nisso, responda às seguintes questões:

1/ O cartunista argentino Liniers se inspirou no mestrre do barroco italiano Caravaggio. Explique a diferença entre as duas imagens.
2/ Do que exatamente o eu-lírico da música de Caetano Veloso aparentemente não gostou de primeira? Por quê?
3/ Com base nessas três expressões textuais, seria possível explicar qual é a moral do mito de Narciso? Se sim, em qual dos três casos o mito é mais próximo do seu relato original? Por quê?

Laerte



Sobre Laerte: http://www2.uol.com.br/laerte/

Somos todos imbecis - Pasquale Cipro Neto

Somos todos imbecis - Pasquale Cipro Neto

Pela enésima vez neste espaço, recorro a Paulo Freire: "A leitura do mundo precede a leitura da palavra". Permito-me, mais uma vez, explicar aos que não entendem: quem não compreende o mundo, a realidade e as suas correlações não entende a palavra, o (con)texto etc.

A vida é um complexo e interminável texto, caro leitor. Às vezes, julgamo-nos capazes de entender ao menos os textos mais comezinhos, embora isso seja extremamente difícil ou mesmo impossível para a parcela imbecil da humanidade.

Como diz Leonardo Sakamoto, faltam amor e compreensão de texto. Quando se leem os comentários dos "internautas" sobre determinados textos, nota-se que o analfabetismo funcional, aliado ao ódio, ao preconceito, à ignorância, à falta de sensibilidade, de cultura, de educação gera manifestações dignas de pena, nojo, desprezo etc., etc., etc.

Do alto da sua grande sabedoria, o eterno Umberto Eco dizia que a internet deu voz aos imbecis, o que é fato cabal, mais do que cabal. Que eu saiba, Eco não chegava a dizer que os imbecis são majoritários.

Exemplifiquemos a compreensão torta: em suas delações, Delcídio diz que o PT isso, o PT aquilo, e automaticamente isso se torna "verdade". Quando ele diz que o PSDB isso, o PSDB aquilo, o barulho e o ódio não são os mesmos, e nada disso vira "verdade" imediatamente.

Se você ler o que acabei de dizer como uma defesa do indefensável PT, sugiro que volte aos bancos escolares e reaprenda o beabá da leitura. Desenho, para quem entendeu tortamente: uma delação, seja contra quem for, carece de comprovação, nada mais do que isso.

Mas agora a questão é outra. Um ponto é manifestarmos a nossa imbecilidade por avaliarmos como o Diabo gosta textos que não têm (nem de longe) o sentido que neles enxergamos, por ignorância, ódio, miopia intelectual, moral, ética.

Outro ponto é estarmos no pleno domínio das nossas faculdades mentais e também da capacidade de compreensão dos fatos e das suas correlações e alguém tentar nos convencer de que a nossa compreensão do texto (isto é, dos fatos) não é correta, verdadeira, pertinente etc.

Aí é o caso de inverter a proporção do que dizia o grande Umberto Eco, se é que ele não julgava majoritários os imbecis: no Brasil de hoje, nós, os imbecis, somos majoritários.

O melhor exemplo disso tudo é o que tem feito o "governo" nas suas desesperadas tentativas de sobreviver. Os imbecis não conseguimos compreender a real intenção da nomeação de Lula para a Casa Civil, por exemplo, o que prova e comprova que somos todos imbecis. Também não compreendemos a real intenção de Dilma no telefonema para Lula.

Os imbecis não conseguimos compreender também que nunca antes neste país houve roubalheira, ou seja, a roubalheira começou com o PT. Não conseguimos compreender, por exemplo, que, antes do PT, as empreiteiras investigadas na Lava Jato eram verdadeiros monastérios, desde a imaculada ditadura militar, recheada de santos, bravos e indefessos defensores da pátria.

Tomo emprestados uns versos da letra da genial e atualíssima "Saudosismo", de Caetano Veloso: "Eu, você, depois, Quarta-feira de Cinzas no país, e as notas dissonantes se integraram aos sons dos imbecis". É, caríssimo Umberto Eco, siamo veramente tutti imbecilli.

E eu já tô de saco cheio. É isso.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/2016/03/1750845-somos-todos-imbecis.shtml?cmpid=compfb

Crônica “Lixo”, L F Verissimo

O lixo  - Luís Fernando Verissimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tin ha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=7243

quinta-feira, 17 de março de 2016

Liberdade de expressão

- Liberdade de expressão, a definição constitucional
http://observatoriodaimprensa.com.br/caderno-da-cidadania/liberdade-de-expressao-a-definicao-constitucional/

- Há limites para a liberdade de expressão?
http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/ha-limites-para-a-liberdade-de-expressao.jhtm

- Os limites da liberdade de expressão
http://www.investidura.com.br/ufsc/113-direito-constitucional/3855-os-limites-da-liberdade-de-expressao.html

- A abordagem constitucional da liberdade de expressão
http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/8017/A-abordagem-constitucional-da-liberdade-de-expressao

- Constituição Federal
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm

Aula dia 23 / 03 / 2016

- Íntegra das conversas de Lula reveladas na Lava Jato
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1750807-ouca-a-integra-das-conversas-de-lula-reveladas-na-lava-jato.shtml

- Quebra de sigilo de Sérgio Moro é questionada por juristas: entenda
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/17/politica/1458183598_880206.html

- Ex-procurador-geral da República diz que 'imprensa é seletiva' e recomenda 'cautela' ao MP
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160316_entrevista_claudio_fonteles_ms_rm

- Operação que inspirou Lava Jato foi fracasso e criou corruptos mais sofisticados, diz pesquisador
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160316_lavajato_dois_anos_entrevista_lab

- Envio de termo a Lula é “abuso de poder” de Dilma, avaliam juristas
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/17/politica/1458190255_022641.html

sexta-feira, 11 de março de 2016

AULA LÍNGUA PORTUGUESA 16/03/2016 - parte 2

BERLUSCONIZAÇÃO DA POLÍTICA
Corrupção, espetáculo, manipulação do sistema eleitoral e outros ingredientes da crise democrática na Europa
por PERRY ANDERSON

[...] Um afresco sobre o tema poderia começar com Helmut Kohl, governante da Alemanha por dezesseis anos, que acumulou um caixa dois de campanha de cerca de 2 milhões de marcos alemães [cerca de 3 milhões de reais]. Quando o caso foi descoberto, ele não quis revelar os nomes dos doadores, com medo de que viessem à luz os favores que eles receberam em troca. Jacques Chirac, presidente da República francesa durante doze anos, foi condenado por desvio de dinheiro público, abuso do cargo e conflito de interesses, depois que perdeu sua imunidade. Nenhum deles sofreu punição. Eram os políticos mais poderosos da Europa em sua época. Uma olhada no que ocorreu desde então é suficiente para desfazer qualquer ilusão de que se trata de casos isolados.

Na Alemanha, o governo de Gerhard Schröder garantiu um empréstimo de 1 bilhão de euros à companhia russa Gazprom para a construção de um oleoduto, poucas semanas antes de o chanceler deixar o cargo e entrar na folha de pagamento da empresa com um salário superior ao que recebia para governar o país. Desde que ele saiu, Angela Merkel viu dois sucessivos presidentes da República serem obrigados a renunciar: Horst Köhler, antigo chefe do Fundo Monetário Internacional, por haver explicado que o contingente militar alemão no Afeganistão estava protegendo interesses comerciais do país; e Christian Wulff, antigo chefe democrata-cristão na Baixa Saxônia, em razão de um empréstimo duvidoso para sua casa feito por um empresário amigo. Dois importantes ministros, um da Defesa, a outra da Educação, tiveram que deixar o cargo ao terem os títulos de doutor cassados por furto intelectual. Quando esta última, Annette Schavan, amiga íntima de Merkel (que manifestou plena confiança nela), ainda se agarrava ao cargo, o tabloideBild comentou que ter uma ministra da Educação que frauda pesquisas era como ter um ministro das Finanças com uma conta bancária secreta na Suíça.

Dito e feito. Na França, descobriu-se que o ministro socialista do Orçamento, o cirurgião plástico Jérôme Cahuzac, tinha de 600 mil a 15 milhões de euros em depósitos secretos na Suíça e em Cingapura. Nicolas Sarkozy, enquanto isso, é acusado por testemunhas de ter recebido cerca de 50 milhões de euros do líbio Muammar Kadafi para a campanha eleitoral que o conduziu à Presidência. Christine Lagarde, sua ministra das Finanças, agora na chefia do FMI, está sendo investigada por seu papel na concessão de 420 milhões de euros em “compensação” para Bernard Tapie, conhecido trapaceiro com antecedentes penais e, nos últimos tempos, amigo de Sarkozy. A contiguidade descuidada com o crime é bipartidária. O socialista François Hollande, atual presidente da República, ia na garupa de uma moto para seus encontros com a amante no apartamento de uma prostituta ligada a um gângster corso morto num tiroteio na ilha.

Na Grã-Bretanha, mais ou menos na mesma época, o ex-primeiro-ministro Tony Blair dava conselhos a Rebekah Brooks, ex-braço direito do magnata da mídia Rupert Murdoch, que corria o risco de ir para a cadeia por cinco acusações de conspiração criminosa relacionadas à época em que dirigia o extinto tabloide News of the World. “Tenha à mão comprimidos para dormir. Isto vai passar. Seja forte”, disse Blair a Rebekah, recomendando-lhe ainda que abrisse uma investigação “independente” sobre o caso como ele mesmo tinha feito para isentar seu governo de qualquer participação na morte de David Kelly, o cientista britânico e inspetor da ONU no Iraque que questionara as razões alegadas para a invasão do país árabe, uma invasão que renderia a Blair – para a sua Faith Foundation, é claro – uma profusão de gorjetas e negócios no mundo inteiro, com destaque para doações de uma empresa petrolífera sul-coreana, presidida por um criminoso condenado com interesses no Iraque, e da dinastia feudal do Kuwait.

Na Espanha, o atual primeiro-ministro, Mariano Rajoy, à frente de um governo de direita, foi flagrado recebendo propinas em obras públicas e outros negócios, no valor total de 250 mil euros ao longo de uma década, que lhe foram repassados por Luis Bárcenas. Tesoureiro do Partido Popular durante vinte anos, Bárcenas está preso por amealhar 48 milhões de euros em contas não declaradas na Suíça. Fotocópias dos livros de contabilidade com registros à mão de suas transferências para Rajoy e outras figuras do partido – como Rodrigo Rato, outro ex-diretor do FMI – circularam na imprensa espanhola. Quando estourou o escândalo, Rajoy passou uma mensagem de texto para Bárcenas com palavras praticamente idênticas às de Blair para Rebekah Brooks: “Luis, eu compreendo. Seja forte. Ligo amanhã. Um abraço.” Oitenta e cinco por cento da opinião pública espanhola acham que Rajoy está mentindo, mas ele continua firme no Palácio da Moncloa.
Na Grécia, o social-democrata Akis Tsochatzopoulos, sucessivamente ministro do Interior, da Defesa e do Desenvolvimento, teve menos sorte: foi condenado a vinte anos de prisão por uma formidável carreira de extorsões e lavagem de dinheiro. Do outro lado do mar Egeu, o premiê turco Tayyip Erdogan – que a mídia e o establishment intelectual da Europa costumavam louvar como o maior estadista democrata da Turquia, cuja conduta praticamente conquistou para o país a filiação honorária à União Europeia – mostrou que é digno de figurar nas fileiras dos dirigentes da ue por outras razões: numa conversa gravada, instruía o filho sobre onde esconder 10 milhões em espécie; noutra, elevava o preço de um suborno num contrato de construção. Três membros do seu gabinete foram derrubados por revelações parecidas, antes que Erdogan fizesse um expurgo na polícia e no Judiciário, para impedir que o assunto fosse adiante.
Enquanto ele fazia isso, a Comissão Europeia divulgou seu primeiro relatório oficial sobre corrupção na ue, cujas dimensões foram descritas como “assombrosas” pelo comissário que redigiu o documento: numa estimativa por baixo, a corrupção custa o equivalente a todo o orçamento do bloco, cerca de 120 bilhões de euros por ano. Prudentemente, o relatório cobria apenas países-membros. A Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, com sede em Bruxelas, foi excluída.

http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/berlusconizacao-da-politica/

AULA LÍNGUA PORTUGUESA 16/03/2016

Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. 

Brás Cubas.

Fonte: http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf

Vocabulário:
Nimiamente: de maneira superabundante.
Piparote: peteleco.