Aula de história
É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma
Desde que se instalou na Casa Branca em janeiro de 2009, o presidente Barack Obama evita levar as filhas Malia e Sasha, hoje adolescentes de 17 e 14 anos, em suas viagens oficiais mundo afora. Abriu exceção para a visita desta semana a Cuba e à Argentina por dois motivos.
Primeiro, ela coincide com o recesso de primavera do ano letivo americano, portanto, as meninas não perderiam aulas. Segundo e sobretudo, o roteiro serviria de valiosa aula de história para as adolescentes, nos moldes da impactante visita à Africa do Sul de Nelson Mandela ocorrida três anos atrás.
Para Obama, que já estivera em Robben Island anteriormente, levar as filhas à cela número 5, onde o líder anti-apartheid esteve confinado por 18 anos, foi imperativo. “Eu sabia que seria uma experiência profunda. Elas começaram a compreender a força do espírito de liberdade de tantos que ali ficaram presos e não se dobraram”, comentou depois com estudantes da Universidade da Cidade do Cabo.
Em Cuba, as meninas terão presenciado um naco de história, ao vivo, à qual só darão o devido peso mais adiante na vida. Talvez nem tenham percebido a força e tato com que o pai, comunicador nato de 54 anos, ajudou o líder comunista Raúl Castro, de 84, a sobreviver à sua primeira entrevista coletiva de estilo brutalmente democrático. “Obrigado”, disse-lhe o visitante ao final, bem baixinho, ciente da indigesta provação pela qual passara o anfitrião.
É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma, pois a engrenagem de reaproximação entre os dois países colocada em marcha pelo pai não tem volta. Qual novo país e sociedade disso resultará as filhas haverão de acompanhar com interesse, orgulho, curiosidade e talvez afeto especial.
Mas o caso do longo ostracismo imposto pelos Estados Unidos a Cuba foi tão singular e neurastênico que não serve de exemplo para nada. O breve contato com a história da Argentina, ao contrário, pode ter sido didático para as meninas. Lição dura, realista e oportuna porque a ingerência dos EUA na política daquele país corre o risco de ser repetida por futuros ocupantes da Casa Branca em outras partes do mundo — basta ouvir o que dizem em seus discursos de campanha os atuais candidatos republicanos à sucessão de Obama.
Até hoje, 43% dos argentinos têm opinião desfavorável sobre os EUA — o maior índice de rejeição entre os países das Américas ouvidos pelo Centro de Pesquisa Pew, de Washington. Entre eles está o Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, que publicou uma carta aberta a Obama instando-o a adiar sua viagem desta semana, por considerá-la um gesto de provocação.
Isso porque a visita oficial de dois dias coincidiu com uma das datas mais traumáticas da história do país: o 40 º aniversário do golpe militar de 24 de março de 1976, que deu início à chamada “Guerra Suja”, incentivada pelo governo americano da época. Foram sete anos de assassinatos premeditados e sistemáticos, resultando em cerca de 13 mil mortes/desaparecimentos, segundo estimativas oficiais, ou perto de 30 mil, segundo grupos de direitos humanos.
São incontáveis as feridas ainda não cicatrizadas no país, e Obama optou por encará-las. “Sei que existem polêmicas sobre a política dos Estados Unidos naqueles dias sombrios. As democracias devem saber reconhecer quando não cumprem os ideais que defendem, quando tardam em defender os direitos humanos, e foi o [nosso] caso na Argentina... Temos a responsabilidade de enfrentar o passado com honestidade e transparência”, discursou no Parque de La Memória, memorial erguido sobre o Rio da Prata em homenagem aos mortos da ditadura.
Não foram palavras apenas. Junto, ele fez o anúncio mais precioso para vítimas, pesquisadores e cidadãos comuns com direito à história do seu país: o governo Obama vai tornar públicos, pela primeira vez, uma montanha de documentos secretos de FBI, CIA, Departamento de Defesa e outras agências de inteligência relacionadas à ditadura argentina.
Um primeiro lote de 4.700 documentos já havia sido liberado em 2002, porém referia-se apenas a material cedido pelo Departamento de Estado. Mesmo esses já são bastante comprometedores para Henry Kissinger, à época secretário de Estado do governo Gerald Ford.
Dois dias após o golpe, por exemplo, William Rogers, seu secretário-assistente para a América Latina, alertou-o para o fato de que os generais fariam “um esforço considerável para envolver os EUA”. Kissinger , segundo o memorando, responde “Sim, mas é do nosso interesse”. Rogers recomenda que “por ora não devemos nos apressar em abraçar esse novo regime” porque “devemos prever uma repressão de grande porte, provavelmente com grande derramamento de sangue”. Ainda assim, Kissinger deixa clara a sua preferência: “...Eles vão precisar de um pouco de encorajamento… quero encorajá-los”.
Em outro memorando, Kissinger dá um conselho cirúrgico ao chanceler argentino César Guzzetti: “Se há coisas por fazer, que sejam feitas rapidamente. Mas vocês devem voltar a procedimentos normais rapidamente… Queremos que vocês tenham êxito…”
Os documentos agora liberados podem conter informações críticas para avaliar melhor o que os EUA sabiam, quem e quando souberam e o quanto ajudaram a ditadura mais repressiva da América Latina.
Mas Obama poderá contar às filhas o capítulo seguinte, mais virtuoso, e ilustrar que, para fazer história, basta querer. Nove meses depois do golpe argentino, assumiu a Casa Branca o democrata Jimmy Carter, sulista tido como caipira e despreparado. Pois deve-se a ele, exclusivamente, o desmonte do apoio a qualquer ditadura e a persistente implantação de uma politica de defesa de direitos humanos.
O primeiro encontro de sua enviada, Patricia Derian, com o almirante Emilio Massera, um dos algozes mais ferozes do regime argentino, ocorreu na Escola Naval de Buenos Aires, centro de detenção onde estima-se que cinco mil pessoas foram mortas. “É possível que, enquanto conversamos, pessoas estejam sendo torturadas aqui?”, foi a pergunta inicial de Derian.
Malia e Sasha tiveram do que se orgulhar também na Argentina.
Dorrit Harazim é jornalista
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/aula-de-historia-18960689
É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma
Desde que se instalou na Casa Branca em janeiro de 2009, o presidente Barack Obama evita levar as filhas Malia e Sasha, hoje adolescentes de 17 e 14 anos, em suas viagens oficiais mundo afora. Abriu exceção para a visita desta semana a Cuba e à Argentina por dois motivos.
Primeiro, ela coincide com o recesso de primavera do ano letivo americano, portanto, as meninas não perderiam aulas. Segundo e sobretudo, o roteiro serviria de valiosa aula de história para as adolescentes, nos moldes da impactante visita à Africa do Sul de Nelson Mandela ocorrida três anos atrás.
Para Obama, que já estivera em Robben Island anteriormente, levar as filhas à cela número 5, onde o líder anti-apartheid esteve confinado por 18 anos, foi imperativo. “Eu sabia que seria uma experiência profunda. Elas começaram a compreender a força do espírito de liberdade de tantos que ali ficaram presos e não se dobraram”, comentou depois com estudantes da Universidade da Cidade do Cabo.
Em Cuba, as meninas terão presenciado um naco de história, ao vivo, à qual só darão o devido peso mais adiante na vida. Talvez nem tenham percebido a força e tato com que o pai, comunicador nato de 54 anos, ajudou o líder comunista Raúl Castro, de 84, a sobreviver à sua primeira entrevista coletiva de estilo brutalmente democrático. “Obrigado”, disse-lhe o visitante ao final, bem baixinho, ciente da indigesta provação pela qual passara o anfitrião.
É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma, pois a engrenagem de reaproximação entre os dois países colocada em marcha pelo pai não tem volta. Qual novo país e sociedade disso resultará as filhas haverão de acompanhar com interesse, orgulho, curiosidade e talvez afeto especial.
Mas o caso do longo ostracismo imposto pelos Estados Unidos a Cuba foi tão singular e neurastênico que não serve de exemplo para nada. O breve contato com a história da Argentina, ao contrário, pode ter sido didático para as meninas. Lição dura, realista e oportuna porque a ingerência dos EUA na política daquele país corre o risco de ser repetida por futuros ocupantes da Casa Branca em outras partes do mundo — basta ouvir o que dizem em seus discursos de campanha os atuais candidatos republicanos à sucessão de Obama.
Até hoje, 43% dos argentinos têm opinião desfavorável sobre os EUA — o maior índice de rejeição entre os países das Américas ouvidos pelo Centro de Pesquisa Pew, de Washington. Entre eles está o Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, que publicou uma carta aberta a Obama instando-o a adiar sua viagem desta semana, por considerá-la um gesto de provocação.
Isso porque a visita oficial de dois dias coincidiu com uma das datas mais traumáticas da história do país: o 40 º aniversário do golpe militar de 24 de março de 1976, que deu início à chamada “Guerra Suja”, incentivada pelo governo americano da época. Foram sete anos de assassinatos premeditados e sistemáticos, resultando em cerca de 13 mil mortes/desaparecimentos, segundo estimativas oficiais, ou perto de 30 mil, segundo grupos de direitos humanos.
São incontáveis as feridas ainda não cicatrizadas no país, e Obama optou por encará-las. “Sei que existem polêmicas sobre a política dos Estados Unidos naqueles dias sombrios. As democracias devem saber reconhecer quando não cumprem os ideais que defendem, quando tardam em defender os direitos humanos, e foi o [nosso] caso na Argentina... Temos a responsabilidade de enfrentar o passado com honestidade e transparência”, discursou no Parque de La Memória, memorial erguido sobre o Rio da Prata em homenagem aos mortos da ditadura.
Não foram palavras apenas. Junto, ele fez o anúncio mais precioso para vítimas, pesquisadores e cidadãos comuns com direito à história do seu país: o governo Obama vai tornar públicos, pela primeira vez, uma montanha de documentos secretos de FBI, CIA, Departamento de Defesa e outras agências de inteligência relacionadas à ditadura argentina.
Um primeiro lote de 4.700 documentos já havia sido liberado em 2002, porém referia-se apenas a material cedido pelo Departamento de Estado. Mesmo esses já são bastante comprometedores para Henry Kissinger, à época secretário de Estado do governo Gerald Ford.
Dois dias após o golpe, por exemplo, William Rogers, seu secretário-assistente para a América Latina, alertou-o para o fato de que os generais fariam “um esforço considerável para envolver os EUA”. Kissinger , segundo o memorando, responde “Sim, mas é do nosso interesse”. Rogers recomenda que “por ora não devemos nos apressar em abraçar esse novo regime” porque “devemos prever uma repressão de grande porte, provavelmente com grande derramamento de sangue”. Ainda assim, Kissinger deixa clara a sua preferência: “...Eles vão precisar de um pouco de encorajamento… quero encorajá-los”.
Em outro memorando, Kissinger dá um conselho cirúrgico ao chanceler argentino César Guzzetti: “Se há coisas por fazer, que sejam feitas rapidamente. Mas vocês devem voltar a procedimentos normais rapidamente… Queremos que vocês tenham êxito…”
Os documentos agora liberados podem conter informações críticas para avaliar melhor o que os EUA sabiam, quem e quando souberam e o quanto ajudaram a ditadura mais repressiva da América Latina.
Mas Obama poderá contar às filhas o capítulo seguinte, mais virtuoso, e ilustrar que, para fazer história, basta querer. Nove meses depois do golpe argentino, assumiu a Casa Branca o democrata Jimmy Carter, sulista tido como caipira e despreparado. Pois deve-se a ele, exclusivamente, o desmonte do apoio a qualquer ditadura e a persistente implantação de uma politica de defesa de direitos humanos.
O primeiro encontro de sua enviada, Patricia Derian, com o almirante Emilio Massera, um dos algozes mais ferozes do regime argentino, ocorreu na Escola Naval de Buenos Aires, centro de detenção onde estima-se que cinco mil pessoas foram mortas. “É possível que, enquanto conversamos, pessoas estejam sendo torturadas aqui?”, foi a pergunta inicial de Derian.
Malia e Sasha tiveram do que se orgulhar também na Argentina.
Dorrit Harazim é jornalista
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/aula-de-historia-18960689


