BERLUSCONIZAÇÃO DA POLÍTICA
Corrupção, espetáculo, manipulação do sistema eleitoral e outros ingredientes da crise democrática na Europa
por PERRY ANDERSON
[...] Um afresco sobre o tema poderia começar com Helmut Kohl, governante da Alemanha por dezesseis anos, que acumulou um caixa dois de campanha de cerca de 2 milhões de marcos alemães [cerca de 3 milhões de reais]. Quando o caso foi descoberto, ele não quis revelar os nomes dos doadores, com medo de que viessem à luz os favores que eles receberam em troca. Jacques Chirac, presidente da República francesa durante doze anos, foi condenado por desvio de dinheiro público, abuso do cargo e conflito de interesses, depois que perdeu sua imunidade. Nenhum deles sofreu punição. Eram os políticos mais poderosos da Europa em sua época. Uma olhada no que ocorreu desde então é suficiente para desfazer qualquer ilusão de que se trata de casos isolados.
Na Alemanha, o governo de Gerhard Schröder garantiu um empréstimo de 1 bilhão de euros à companhia russa Gazprom para a construção de um oleoduto, poucas semanas antes de o chanceler deixar o cargo e entrar na folha de pagamento da empresa com um salário superior ao que recebia para governar o país. Desde que ele saiu, Angela Merkel viu dois sucessivos presidentes da República serem obrigados a renunciar: Horst Köhler, antigo chefe do Fundo Monetário Internacional, por haver explicado que o contingente militar alemão no Afeganistão estava protegendo interesses comerciais do país; e Christian Wulff, antigo chefe democrata-cristão na Baixa Saxônia, em razão de um empréstimo duvidoso para sua casa feito por um empresário amigo. Dois importantes ministros, um da Defesa, a outra da Educação, tiveram que deixar o cargo ao terem os títulos de doutor cassados por furto intelectual. Quando esta última, Annette Schavan, amiga íntima de Merkel (que manifestou plena confiança nela), ainda se agarrava ao cargo, o tabloideBild comentou que ter uma ministra da Educação que frauda pesquisas era como ter um ministro das Finanças com uma conta bancária secreta na Suíça.
Dito e feito. Na França, descobriu-se que o ministro socialista do Orçamento, o cirurgião plástico Jérôme Cahuzac, tinha de 600 mil a 15 milhões de euros em depósitos secretos na Suíça e em Cingapura. Nicolas Sarkozy, enquanto isso, é acusado por testemunhas de ter recebido cerca de 50 milhões de euros do líbio Muammar Kadafi para a campanha eleitoral que o conduziu à Presidência. Christine Lagarde, sua ministra das Finanças, agora na chefia do FMI, está sendo investigada por seu papel na concessão de 420 milhões de euros em “compensação” para Bernard Tapie, conhecido trapaceiro com antecedentes penais e, nos últimos tempos, amigo de Sarkozy. A contiguidade descuidada com o crime é bipartidária. O socialista François Hollande, atual presidente da República, ia na garupa de uma moto para seus encontros com a amante no apartamento de uma prostituta ligada a um gângster corso morto num tiroteio na ilha.
Na Grã-Bretanha, mais ou menos na mesma época, o ex-primeiro-ministro Tony Blair dava conselhos a Rebekah Brooks, ex-braço direito do magnata da mídia Rupert Murdoch, que corria o risco de ir para a cadeia por cinco acusações de conspiração criminosa relacionadas à época em que dirigia o extinto tabloide News of the World. “Tenha à mão comprimidos para dormir. Isto vai passar. Seja forte”, disse Blair a Rebekah, recomendando-lhe ainda que abrisse uma investigação “independente” sobre o caso como ele mesmo tinha feito para isentar seu governo de qualquer participação na morte de David Kelly, o cientista britânico e inspetor da ONU no Iraque que questionara as razões alegadas para a invasão do país árabe, uma invasão que renderia a Blair – para a sua Faith Foundation, é claro – uma profusão de gorjetas e negócios no mundo inteiro, com destaque para doações de uma empresa petrolífera sul-coreana, presidida por um criminoso condenado com interesses no Iraque, e da dinastia feudal do Kuwait.
Na Espanha, o atual primeiro-ministro, Mariano Rajoy, à frente de um governo de direita, foi flagrado recebendo propinas em obras públicas e outros negócios, no valor total de 250 mil euros ao longo de uma década, que lhe foram repassados por Luis Bárcenas. Tesoureiro do Partido Popular durante vinte anos, Bárcenas está preso por amealhar 48 milhões de euros em contas não declaradas na Suíça. Fotocópias dos livros de contabilidade com registros à mão de suas transferências para Rajoy e outras figuras do partido – como Rodrigo Rato, outro ex-diretor do FMI – circularam na imprensa espanhola. Quando estourou o escândalo, Rajoy passou uma mensagem de texto para Bárcenas com palavras praticamente idênticas às de Blair para Rebekah Brooks: “Luis, eu compreendo. Seja forte. Ligo amanhã. Um abraço.” Oitenta e cinco por cento da opinião pública espanhola acham que Rajoy está mentindo, mas ele continua firme no Palácio da Moncloa.
Corrupção, espetáculo, manipulação do sistema eleitoral e outros ingredientes da crise democrática na Europa
por PERRY ANDERSON
[...] Um afresco sobre o tema poderia começar com Helmut Kohl, governante da Alemanha por dezesseis anos, que acumulou um caixa dois de campanha de cerca de 2 milhões de marcos alemães [cerca de 3 milhões de reais]. Quando o caso foi descoberto, ele não quis revelar os nomes dos doadores, com medo de que viessem à luz os favores que eles receberam em troca. Jacques Chirac, presidente da República francesa durante doze anos, foi condenado por desvio de dinheiro público, abuso do cargo e conflito de interesses, depois que perdeu sua imunidade. Nenhum deles sofreu punição. Eram os políticos mais poderosos da Europa em sua época. Uma olhada no que ocorreu desde então é suficiente para desfazer qualquer ilusão de que se trata de casos isolados.
Na Alemanha, o governo de Gerhard Schröder garantiu um empréstimo de 1 bilhão de euros à companhia russa Gazprom para a construção de um oleoduto, poucas semanas antes de o chanceler deixar o cargo e entrar na folha de pagamento da empresa com um salário superior ao que recebia para governar o país. Desde que ele saiu, Angela Merkel viu dois sucessivos presidentes da República serem obrigados a renunciar: Horst Köhler, antigo chefe do Fundo Monetário Internacional, por haver explicado que o contingente militar alemão no Afeganistão estava protegendo interesses comerciais do país; e Christian Wulff, antigo chefe democrata-cristão na Baixa Saxônia, em razão de um empréstimo duvidoso para sua casa feito por um empresário amigo. Dois importantes ministros, um da Defesa, a outra da Educação, tiveram que deixar o cargo ao terem os títulos de doutor cassados por furto intelectual. Quando esta última, Annette Schavan, amiga íntima de Merkel (que manifestou plena confiança nela), ainda se agarrava ao cargo, o tabloideBild comentou que ter uma ministra da Educação que frauda pesquisas era como ter um ministro das Finanças com uma conta bancária secreta na Suíça.
Dito e feito. Na França, descobriu-se que o ministro socialista do Orçamento, o cirurgião plástico Jérôme Cahuzac, tinha de 600 mil a 15 milhões de euros em depósitos secretos na Suíça e em Cingapura. Nicolas Sarkozy, enquanto isso, é acusado por testemunhas de ter recebido cerca de 50 milhões de euros do líbio Muammar Kadafi para a campanha eleitoral que o conduziu à Presidência. Christine Lagarde, sua ministra das Finanças, agora na chefia do FMI, está sendo investigada por seu papel na concessão de 420 milhões de euros em “compensação” para Bernard Tapie, conhecido trapaceiro com antecedentes penais e, nos últimos tempos, amigo de Sarkozy. A contiguidade descuidada com o crime é bipartidária. O socialista François Hollande, atual presidente da República, ia na garupa de uma moto para seus encontros com a amante no apartamento de uma prostituta ligada a um gângster corso morto num tiroteio na ilha.
Na Grã-Bretanha, mais ou menos na mesma época, o ex-primeiro-ministro Tony Blair dava conselhos a Rebekah Brooks, ex-braço direito do magnata da mídia Rupert Murdoch, que corria o risco de ir para a cadeia por cinco acusações de conspiração criminosa relacionadas à época em que dirigia o extinto tabloide News of the World. “Tenha à mão comprimidos para dormir. Isto vai passar. Seja forte”, disse Blair a Rebekah, recomendando-lhe ainda que abrisse uma investigação “independente” sobre o caso como ele mesmo tinha feito para isentar seu governo de qualquer participação na morte de David Kelly, o cientista britânico e inspetor da ONU no Iraque que questionara as razões alegadas para a invasão do país árabe, uma invasão que renderia a Blair – para a sua Faith Foundation, é claro – uma profusão de gorjetas e negócios no mundo inteiro, com destaque para doações de uma empresa petrolífera sul-coreana, presidida por um criminoso condenado com interesses no Iraque, e da dinastia feudal do Kuwait.
Na Espanha, o atual primeiro-ministro, Mariano Rajoy, à frente de um governo de direita, foi flagrado recebendo propinas em obras públicas e outros negócios, no valor total de 250 mil euros ao longo de uma década, que lhe foram repassados por Luis Bárcenas. Tesoureiro do Partido Popular durante vinte anos, Bárcenas está preso por amealhar 48 milhões de euros em contas não declaradas na Suíça. Fotocópias dos livros de contabilidade com registros à mão de suas transferências para Rajoy e outras figuras do partido – como Rodrigo Rato, outro ex-diretor do FMI – circularam na imprensa espanhola. Quando estourou o escândalo, Rajoy passou uma mensagem de texto para Bárcenas com palavras praticamente idênticas às de Blair para Rebekah Brooks: “Luis, eu compreendo. Seja forte. Ligo amanhã. Um abraço.” Oitenta e cinco por cento da opinião pública espanhola acham que Rajoy está mentindo, mas ele continua firme no Palácio da Moncloa.
Na Grécia, o social-democrata Akis Tsochatzopoulos, sucessivamente ministro do Interior, da Defesa e do Desenvolvimento, teve menos sorte: foi condenado a vinte anos de prisão por uma formidável carreira de extorsões e lavagem de dinheiro. Do outro lado do mar Egeu, o premiê turco Tayyip Erdogan – que a mídia e o establishment intelectual da Europa costumavam louvar como o maior estadista democrata da Turquia, cuja conduta praticamente conquistou para o país a filiação honorária à União Europeia – mostrou que é digno de figurar nas fileiras dos dirigentes da ue por outras razões: numa conversa gravada, instruía o filho sobre onde esconder 10 milhões em espécie; noutra, elevava o preço de um suborno num contrato de construção. Três membros do seu gabinete foram derrubados por revelações parecidas, antes que Erdogan fizesse um expurgo na polícia e no Judiciário, para impedir que o assunto fosse adiante.
Enquanto ele fazia isso, a Comissão Europeia divulgou seu primeiro relatório oficial sobre corrupção na ue, cujas dimensões foram descritas como “assombrosas” pelo comissário que redigiu o documento: numa estimativa por baixo, a corrupção custa o equivalente a todo o orçamento do bloco, cerca de 120 bilhões de euros por ano. Prudentemente, o relatório cobria apenas países-membros. A Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, com sede em Bruxelas, foi excluída.
http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/berlusconizacao-da-politica/
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