quarta-feira, 13 de abril de 2016

PROCURA DA POESIA - DRUMMOND

Procura da Poesia
Carlos Drummond de Andrade
 
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

ENEM 2015

QUESTÃO 110
Em primeiro lugar gostaria de manifestar os meus agradecimentos pela honra de vir outra vez à Galiza e conversar não só com os antigos colegas, alguns dos quais fazem parte da mesa, mas também com novos colegas, que pertencem à nova geração, em cujas mãos, com toda certeza, está também o destino do Galego na Galiza, e principalmente o destino do Galego incorporado à grande família lusófona. E, portanto, é com muito prazer que teço algumas considerações sobre o tema apresentado. Escolhi como tema como os fundadores da Academia Brasileira de Letras viam a língua portuguesa no seu tempo. Como sabem, a nossa Academia, fundada em 1897, está agora completando 110 anos, foi organizada por uma reunião de jornalistas, literatos, poetas que se reuniam na secretaria da Revista Brasileira, dirigida por um crítico literário e por um literato chamado José Veríssimo, natural do Pará, e desse entusiasmo saiu a ideia de se criar a Academia Brasileira, depois anexada ao seu título: Academia Brasileira de Letras. Nesse sentido, Machado de Assis, que foi o primeiro presidente desde a sua inauguração até a data de sua morte, em 1908, imaginava que a nossa Academia deveria ser uma academia de Letras, portanto, de literatos. 

BECHARA, E. Disponível em: www.academiagalega.org. Acesso em: 31 jul. 2012. No trecho da palestra proferida por Evanildo Bechara.

O uso de estruturas gramaticais típicas da norma padrão da língua. Esse uso
A torna a fala inacessível aos não especialistas no assunto abordado.
B contribui para a clareza e a organização da fala no nível de formalidade esperado para a situação.
C atribui à palestra características linguísticas restritas à modalidade escrita da língua portuguesa.
D Dificulta a compreensão do auditório para preservar o caráter rebuscado da fala.
E evidencia distanciamento entre o palestrante e o auditório para atender os objetivos do gênero palestra.



QUESTÃO 115
Ai se sêsse
Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém se acontecesse
De São Pedro não abrisse
A porta do céu e fosse
Te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse
Pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caísse
E o céu furado arriasse
E as virgi toda fugisse

ZÉ DA LUZ. Cordel do Fogo Encantado. Recife: Álbum de estúdio, 2001. 

O poema foi construído com formas do português não padrão. Essas formas legitimam-se na construção do texto, pois

A revelam o bom humor do eu lírico do poema.
B estão presentes na língua e na identidade popular.
C revelam as escolhas de um poeta não escolarizado.
D tornam a leitura fácil de entender para a maioria dos brasileiros.
E compõem um conjunto de estruturas linguísticas inovadoras. 

Latuff x Trump

 

Carlos Latuff
Fonte: https://latuffcartoons.wordpress.com/2015/10/19/syria-refugees-tragedy-cartoons-via-operamundi-and-middleeasteye/




Fonte:

https://twitter.com/realDonaldTrump/status/718269255872081922?ref_src=twsrc%5Etfw

Os golpeados - Ana Paula Lisboa

Os golpeados
Na favela, diferentemente de outras áreas da cidade, a polícia tem aval para matar


Uma das coisas mais bonitas que ouvi desde que comecei a ocupar esse lugar de escrevente foi: “Ana, depois de ler sua coluna eu fico feliz”. Desta vez não pretendo que seja assim. Espero que, ao terminar a leitura do texto desta quarta, ninguém esteja feliz.

O possível impeachment da presidenta Dilma tomou todos os meios de comunicação nos últimos meses e “não há outro assunto”, como bem relatou minha companheira de coluna Maria Ribeiro. Maria explicou melhor do que eu poderia que existe, sim, um país dividido, mas não politicamente.

Minha teoria sobre o porquê de a maioria absoluta dos manifestantes — de esquerda e de direita — ter curso superior é bem simples. “Os outros” têm uma coisa muito mais importante a fazer que bater panelas ou balançar bandeiras vermelhas: lutar pela vida. Aqui falo da vida no seu sentido mais primitivo: aquela coisa a que supostamente todo mundo tem direito.

Só faz dois anos que me dei conta da morte. A mulher mais velha da minha família, Tia Maria, está firme e forte com seus 98 anos. E o fato de eu vir de um lugar com muitos nascimentos e poucos enterros não me preparou.

Imagine meu susto ao ler os dados divulgados na campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional, e descobrir que “o Brasil é o país onde mais se mata no mundo, superando muitos países em situação de guerra. Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas. Destas, 30.000 são jovens entre 15 e 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticada por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados”.

Há algumas semanas, eu estava balançando alegremente minha bandeira vermelha na janela, gritando nas ruas. Podia ter esquecido as estatísticas por um momento, mas é difícil esquecer que vários dos que estão na Comissão do Impeachment são os que pregam contra a descriminalização do aborto, “pelo direito à vida”, e os mesmos que fazem coro de que bandido bom é bandido morto.

Até que novos corpos caíram: Cidade de Deus, Manguinhos, Mangueira, Jacarezinho, Acari.

E mais agudas que as estatísticas são as vozes. Já ouviu a voz de uma mãe embargada contando sobre o assassinato do filho? Mães não deveriam enterrar seus filhos. As mães pretas, menos ainda.

“As notícias que chegam direto do campo de extermínio dão conta de pelo menos mais três mortos”, postou um amigo. As mídias sociais têm cumprido o papel da visibilidade, da outra versão da história contada nos jornais do meio-dia. É que tráfico de drogas é punido com pena de morte no Brasil, sabia? Favelados não vão pra rua gritar se vai ou não ter golpe porque estamos sendo golpeados desde sempre, sabia?

Cinco pessoas foram mortas numa operação policial na favela de Acari no último dia 4. Segundo a Polícia Federal, a intenção era cumprir um mandado de prisão — que não foi cumprido. Só que, ainda assim, a operação foi tida como “bem-sucedida”. Bem perto dali, na Pavuna, há apenas seis meses cinco jovens foram mortos, fuzilados dentro de um carro, você se lembra? Eu me lembro de dormir mal naquela noite e de acender uma vela pelas almas dos jovens. Porque, mesmo sem ter religião, eu acho que deve ser difícil morrer — tanto quanto viver —, ainda mais quando se é jovem.

A polícia é treinada para combater o inimigo, para matá-lo. Preparada para a guerra, a conquista de territórios e a repressão. Mas é importante ressaltar que toda essa preparação não é posta em prática em qualquer lugar, com qualquer “cidadão”. Na favela, diferentemente de outras áreas da cidade, a polícia tem aval para matar, sabia? Mas quem deu esse aval? A certeza da impunidade, o sistema de Segurança Pública e, principalmente, nós. Nós, sociedade, que, segundo a Sociologia, é aquele conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade.

Seja quem for que governe este país a partir do mês de maio precisa trazer para a pauta a reforma da polícia. E cabe a nós, sociedade, cobrar por uma política de segurança pautada não na guerra às drogas, mas na proteção da cidadania: a minha, a sua e a do policial.

Até lá, é preciso desnaturalizar as mortes, a violência, a violação de direitos, romper o silêncio e a indiferença seletiva.

No ano passado, eu estava nos Estados Unidos na época da onda de manifestações, quando mais um jovem negro foi assassinado pela polícia de lá. Vi o noticiário orgulhosa das pessoas nas ruas e acompanhava outros brasileiros também orgulhosos da comunidade negra americana. Mas, quando uma comunidade de Madureira resolveu queimar ônibus do BRT em protesto contra a morte de uma criança, vi os mesmos “Je suis Baltimore” chamarem os manifestantes de vândalos.

Quando meu irmão foi assassinado pela polícia em 12 de fevereiro de 2014 (mesma data em que eu faria 19 anos), queimaram ônibus na Rua Barão do Bom Retiro, no Engenho Novo. Ninguém da minha família participou: estávamos todos sentados numa escada, revezando choro e silêncio, impedindo que a polícia mexesse no local, enquanto esperávamos o IML e a perícia chegarem. Não fomos nós, mas uma comunidade indignada com a covardia.

Eu espero você não esteja feliz. Mas que, como eu e tantas outras famílias, transforme a infelicidade não em ódio ou rancor, mas em luta.


Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/os-golpeados-19071672

Ana Paula é coordenadora de metodologia da Agência de Redes para Juventude, programa que proporciona ferramentas para jovens da periferia desenvolverem projetos em benefício de suas regiões. É também poeta e escritora. Mantém um blog de poesia e teve textos publicados em coletâneas editadas pela Festa Literária das Periferias (Flupp) e no volume de crônicas “O meu lugar” (2015), organizado por Luiz Antonio Simas e Marcelo Moutinho. Além disso, é colaboradora da revista eletrônica feminista “As minas”.


O procedimento do terror - JP Cuenca

Acaba de sair pela editora argentina Eterna Cadência, "Las tres vanguardias. Saer, Puig, Walsh". O livro traz a transcrição das conferências que Ricardo Piglia deu na Universidade de Buenos Aires em 1990. Ele usa os três escritores como pedra de toque para discutir o romance literário contemporâneo e sua relação com o leitor, a política –e o Estado.

O jornal "La Nacion" adiantou um trecho do livro, justamente o que trata das ideias de Piglia sobre o Estado como construtor de ficções. Se um dos níveis fundamentais da relação social é a narração –estamos todos tecendo narrativas o tempo inteiro, é uma obrigação social–, o escritor chama de "narrativa pública" ao relato coletivo cristalizado. E propõe a hipótese de que o Estado sempre irá engendrar uma ficção tentando concentrar essa narrativa.

No Brasil de 2016, tal ficção do Estado é dramaticamente contraposta a outras, traçadas por agentes que querem "ser" Estado no momento seguinte. O Estado seria, portanto, o sol em torno do qual orbita essa trama aparentemente infindável de narrativas contraditórias.

Piglia cita Paul Valéry, na "Política do espírito": "A era da ordem é o império da ficção. Nenhum poder é capaz de sustentar-se apenas com a opressão do corpo a corpo. São necessárias forças fictícias." E junta ao caldo as ideias da "Teoria do romance" onde Lukáks define o gênero literário como a unidade impossível entre dois mundos irreconciliáveis –o possível e o utópico, o real e o ilusório, a vida e o sentido.

O herói do romance, portanto, seria o sujeito insatisfeito que está no meio, tentando passar de um lado ao outro e sempre fracassando.

[...]

Continua aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopaulocuenca/2016/04/1759893-o-procedimento-do-terror.shtml