quarta-feira, 13 de abril de 2016

O procedimento do terror - JP Cuenca

Acaba de sair pela editora argentina Eterna Cadência, "Las tres vanguardias. Saer, Puig, Walsh". O livro traz a transcrição das conferências que Ricardo Piglia deu na Universidade de Buenos Aires em 1990. Ele usa os três escritores como pedra de toque para discutir o romance literário contemporâneo e sua relação com o leitor, a política –e o Estado.

O jornal "La Nacion" adiantou um trecho do livro, justamente o que trata das ideias de Piglia sobre o Estado como construtor de ficções. Se um dos níveis fundamentais da relação social é a narração –estamos todos tecendo narrativas o tempo inteiro, é uma obrigação social–, o escritor chama de "narrativa pública" ao relato coletivo cristalizado. E propõe a hipótese de que o Estado sempre irá engendrar uma ficção tentando concentrar essa narrativa.

No Brasil de 2016, tal ficção do Estado é dramaticamente contraposta a outras, traçadas por agentes que querem "ser" Estado no momento seguinte. O Estado seria, portanto, o sol em torno do qual orbita essa trama aparentemente infindável de narrativas contraditórias.

Piglia cita Paul Valéry, na "Política do espírito": "A era da ordem é o império da ficção. Nenhum poder é capaz de sustentar-se apenas com a opressão do corpo a corpo. São necessárias forças fictícias." E junta ao caldo as ideias da "Teoria do romance" onde Lukáks define o gênero literário como a unidade impossível entre dois mundos irreconciliáveis –o possível e o utópico, o real e o ilusório, a vida e o sentido.

O herói do romance, portanto, seria o sujeito insatisfeito que está no meio, tentando passar de um lado ao outro e sempre fracassando.

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Continua aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopaulocuenca/2016/04/1759893-o-procedimento-do-terror.shtml

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