domingo, 19 de junho de 2016

Um relatório para uma academia - Franz Kafka

Eminentes senhores da Academia:

Conferem-me a honra de me convidar a oferecer à Academia um relatório sobre a minha pregressa vida de macaco. Não posso infelizmente corresponder ao convite nesse sentido. Quase cinco anos me separam da condição de símio; espaço de tempo que medido pelo calendário talvez seja breve, mas que é infindavelmente longo para atravessar a galope como eu o fiz, acompanhado em alguns trechos por pessoas excelentes, conselhos, aplauso e música orquestral, mas no fundo sozinho, pois, para insistir na imagem, todo acompanhamento se mantinha bem recuado diante da barreira. Essa realização teria sido impossível se eu tivesse querido me apegar com teimosia à minha origem e às lembranças de juventude. Justamente a renúncia a qualquer obstinação era o supremo mandamento que eu me havia imposto; eu, macaco livre, me submeti a esse jugo. Com isso porém as recordações, por seu turno, se fecharam cada vez mais para mim. O retorno, caso os homens o tivessem desejado, estava de início liberado através do portal inteiro que o céu forma sobre a terra, mas ele foi se tornando simultaneamente mais baixo e mais estreito com a minha evolução, empurrada para a frente a chicote; sentia-me melhor e mais incluído no mundo dos homens; a tormenta cujo sopro me carregava do passado amainou; hoje é apenas uma corrente de ar que me esfria os calcanhares; e o buraco na distância, através do qual ela vem e através do qual eu outrora vim, ficou tão pequeno que eu me esfolaria no ato de atravessá-lo, mesmo que as forças e a vontade bastassem para que retrocedesse até lá. Falando francamente — por mais que eu goste de escolher imagens para estas coisas —, falando francamente, sua origem de macaco, meus senhores, até onde tenham atrás de si algo dessa natureza, não pode estar tão distante dos senhores como a minha está distante de mim. Mas ela faz cócegas no calcanhar de qualquer um que caminhe sobre a terra — do pequeno chimpanzé ao grande Aquiles.

No sentido mais restrito, entretanto, posso talvez responder à indagação dos senhores e o faço até com grande alegria. A primeira coisa que aprendi foi dar um aperto de mão; o aperto de mão é testemunho de franqueza; possa eu hoje, quando estou no auge da minha carreira, acrescentar àquele primeiro aperto de mão a palavra franca. Não ensinará nada essencialmente novo à Academia e ficará muito aquém do que se exigiu de mim e daquilo que, mesmo com a maior boa vontade, eu não posso dizer — ainda assim deve mostrar a linha de orientação pela qual um ex-macaco entrou no mundo dos homens e aí se estabeleceu. Mas sem dúvida não poderia dizer nem a insignificância que se segue, se não estivesse plenamente seguro de mim e se o meu lugar em todos os grandes teatros de variedades do mundo civilizado não tivesse se firmado a ponto de se tornar inabalável.

Sou natural da Costa do Ouro. Sobre como fui capturado, tenho de me valer de relatos de terceiros. Uma expedição de caça da firma Hagenbeck — aliás, com o chefe dela esvaziei desde então algumas boas garrafas de vinho tinto — estava de tocaia nos arbustos da margem, quando ao anoitecer, eu, no meio de um bando, fui beber água. Atiraram; fui o único atingido; levei dois tiros. Um na maçã do rosto: esse foi leve, mas deixou uma cicatriz vermelha de pelos raspados, que me valeu o apelido repelente de Pedro Vermelho, absolutamente descabido e que só podia ter sido inventado por um macaco, como se eu me diferenciasse do macaco amestrado Pedro — morto não faz muito tempo e conhecido em um ou outro lugar — somente pela mancha vermelha na maçã da cara. Mas digo isso apenas de passagem.

O segundo tiro me acertou embaixo da anca. Foi grave e a ele se deve o fato de ainda hoje eu mancar um pouco. Li recentemente, num artigo de algum dos dez mil cabeças de vento que se manifestam sobre mim nos jornais, que minha natureza de símio ainda não está totalmente reprimida; a prova disso é que, quando chegam visitas, eu tenho predileção em despir as calças para mostrar o lugar onde aquele tiro entrou. Deviam arrancar um a um os dedinhos da mão do sujeito que escreveu isso. Eu — eu posso despir as calças a quem me apraz; não se encontrará lá nada senão uma pelúcia bem tratada e a cicatriz de um — escolhamos aqui, para um objetivo definido, uma palavra definida, mas que não deve ser mal entendida — a cicatriz de um tiro delinquente. Está tudo exposto à luz do dia, não há nada a esconder; quando se trata da verdade, qualquer um de espírito largo joga fora as mais finas maneiras. Se, ao contrário, aquele escrevinhador despisse as calças diante da visita que chega, isso sem dúvida teria um outro aspecto e quero considerar como sinal de juízo se ele não o fizer. Mas então que me deixe em paz com os seus sentimentos delicados!

Depois daqueles tiros eu acordei — e aqui, aos poucos, começa a minha própria lembrança — numa jaula na coberta do navio a vapor da firma Hagenbeck. Não era uma jaula gradeada de quatro lados; eram apenas três paredes pregadas num caixote, que formava portanto a quarta parede. O conjunto era baixo demais para que eu me levantasse e estreito demais para que eu me sentasse. Por isso fiquei agachado, com os joelhos dobrados que tremiam sem parar, na verdade voltado para o caixote, uma vez que a princípio eu provavelmente não queria ver ninguém e desejava estar sempre no escuro, enquanto por trás as grades da jaula me penetravam na carne. Consideram vantajoso esse tipo de confinamento de animais selvagens nos primeiros tempos e hoje, pela minha experiência, não posso negar que seja assim do ponto de vista humano.Mas então eu não pensava isso. Pela primeira vez na vida estava sem saída; ao menos em linha reta ela não existia; em linha reta diante de mim estava o caixote, cada tábua firmemente ajustada à outra. É verdade que por entre as tábuas havia uma fresta que ia de lado a lado e, quando a descobri, saudei-a com o uivo bem-aventurado do animal irracional,
mas nem de longe essa fresta bastava para deixar o rabo passar e mesmo com toda a força de um macaco ela não podia ser alargada. Conforme me disseram mais tarde, devo ter feito muito pouco barulho, donde se concluiu que ou iria perecer logo ou que, caso conseguisse sobreviver aos primeiros tempos críticos, ficaria bastante apto a me amestrar. Sobrevivi a esses tempos. Surdos soluços, dolorosa caça às pulgas, fatigado lamber de um coco, batidas de crânio na parede do caixote e mostrar a língua quando alguém se aproximava — foram essas as primeiras ocupações da minha nova vida. Em tudo porém apenas um sentimento: nenhuma saída. Naturalmente só posso retraçar com palavras humanas o que então era sentido à maneira de macaco e em consequência disso cometo distorções; mas embora não possa mais alcançar a velha verdade do símio, pelo menos no sentido da minha descrição ela existe — quanto a isso não há dúvida. Até então eu tivera tantas vias de saída e agora nenhuma! Estava encalhado. Tivessem me pregado, minha liberdade não teria ficado menor. Por que isso? Escalavre a carne entre os dedos do pé que não vai achar o motivo. Comprima as costas contra a barra da jaula até que ela o parta em dois que não vai achar o motivo. Eu não tinha saída, mas precisava arranjar uma, pois sem ela não podia viver. Caso permanecesse sempre colado à parede daquele caixote teria esticado as canelas sem remissão. Mas na firma Hagenbeck o lugar dos macacos é de encontro à parede do caixote — pois bem, por isso deixei de ser macaco. Um raciocínio claro e belo que de algum modo eu devo ter chocado com a barriga, pois os macacos pensam com a barriga.

Tenho medo de que não compreendam direito o que entendo por saída. Emprego a palavra no seu sentido mais comum e pleno. É intencionalmente que não digo liberdade. Não me refiro a esse grande sentimento de liberdade por todos os lados. Como macaco talvez eu o conhecesse e travei conhecimento com pessoas que têm essa aspiração. Mas no que me diz respeito, eu não exigia liberdade nem naquela época nem hoje. Dito de passagem: é muito frequente que os homens se ludibriem entre si com a liberdade. E assim como a liberdade figura entre os sentimentos mais sublimes, também o ludíbrio correspondente figura entre os mais elevados. Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto junto ao teto. Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. “Isso também é liberdade humana”, eu pensava, “movimento soberano.” Ó derrisão da sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso. Não, liberdade eu não queria. Apenas uma saída; à direita, à esquerda, para onde quer que fosse; eu não fazia outras exigências; a saída podia também ser apenas um engano; a exigência era pequena, o engano não seria maior. Ir em frente, ir em frente! Só não ficar parado com os braços levantados, comprimido contra a parede de um caixote. Hoje vejo claro: sem a máxima tranquilidade interior eu nunca poderia ter escapado. E de fato talvez deva tudo o que me tornei à tranquilidade que me sobreveio depois dos primeiros dias lá no navio. Mas a tranquilidade, por sua vez, eu a devo sem dúvida às pessoas do navio. São homens bons, apesar de tudo. Ainda hoje gosto de me lembrar do som dos seus passos pesados que então ressoavam na minha sonolência. Tinham o hábito de agarrar tudo com extrema lentidão. Se algum queria coçar os olhos, erguia a mão como se ela fosse um prumo de chumbo. Suas brincadeiras eram grosseiras mas calorosas. Seu riso estava sempre misturado a uma tosse que soava perigosa mas não significava nada. Tinham sempre na boca alguma coisa para cuspir e para eles era indiferente onde cuspiam. Queixavam-se sempre de que minhas pulgas pulavam em cima deles, mas nunca ficaram seriamente zangados comigo por isso; sabiam muito bem que nos meus pelos as pulgas prosperam e que as pulgas são saltadoras; conformavam-se com isso. Quando estavam de folga, alguns sentavam-se em semicírculo à minha volta; quase não falavam, mas arrulhavam uns para os outros; fumavam os cachimbos esticados sobre os caixotes; davam tapas nos joelhos assim que eu fazia o menor movimento e de vez em quando um deles pegava um pau e me fazia cócegas onde me era agradável. Se hoje eu fosse convidado a fazer uma viagem nesse navio certamente recusaria o convite, mas é igualmente certo que lá na coberta da embarcação eu não me entregaria apenas a más recordações.

A tranquilidade que conquistei no círculo dessas pessoas foi o que acima de tudo me impediu de qualquer tentativa de fuga. Da perspectiva de hoje me parece que eu teria no mínimo pressentido que precisava achar uma saída caso quisesse viver, mas que essa saída não devia ser alcançada pela fuga. Não sei mais se a fuga era possível, porém acredito nisso; a um macaco a fuga deveria ser sempre possível. Com os dentes que tenho hoje preciso ser cauteloso até no ato habitual de quebrar nozes, mas naquela época decerto eu teria conseguido, com o correr do tempo, partir nos dentes a fechadura. Não o fiz. O que teria sido ganho com isso? Teriam me prendido de novo, mal a cabeça estivesse de fora, e trancafiado numa jaula pior ainda; ou então poderia ter fugido sem ser notado até o lado oposto, onde estavam os outros animais, quem sabe até às cobras gigantescas, e exalado o último suspiro nos seus abraços; ou então conseguido escapar para o convés e saltado pela amurada: aí teria balançado um pouquinho sobre o oceano e me afogado. Atos de desespero. Não fazia cálculos tão humanos, mas sob a influência do ambiente comportei-me como se os tivesse feito. Não fazia cálculos, mas sem dúvida observava com toda a calma. Via aqueles homens andando de cima para baixo, sempre os mesmos rostos, os mesmos movimentos, muitas vezes me parecendo que eram apenas um. Aquele homem ou homens andavam pois sem impedimentos. Um alto objetivo começou a clarear na minha mente. Ninguém me prometeu que se eu me tornasse como eles a grade seria levantada. Não se fazem promessas como essa para realizações aparentemente impossíveis. Mas se as realizações são cumpridas, também as promessas aparecem em seguida, exatamente no ponto em que tinham sido inutilmente buscadas. Ora, naqueles homens não havia nada em si mesmo que me atraísse. Se eu fosse um adepto da já referida liberdade, teria com certeza preferido o oceano a essa saída que se me mostrava no turvo olhar daqueles homens. Seja como for, porém, eu os observava desde muito tempo antes que viesse a cogitar nessas coisas — sim, foram as observações acumuladas as que primeiro me impeliram numa direção definida. Era tão fácil imitar as pessoas! Nos primeiros dias eu já sabia cuspir. Cuspimos então um na cara do outro; a única diferença era que depois eu lambia a minha e eles não lambiam a sua. O cachimbo eu logo fumei como um velho; se depois eu ainda comprimia o polegar no fornilho, a coberta inteira do navio se rejubilava; só não entendi durante muito tempo a diferença entre o cachimbo vazio e o cachimbo cheio. O que me custou mais esforço foi a garrafa de aguardente. O cheiro me atormentava; eu me forçava com todas as energias, mas passaram-se semanas antes que eu me dominasse. Curiosamente as pessoas levaram essas lutas interiores mais a sério do que qualquer outra coisa em mim. Não distingo as pessoas nem na minha lembrança, mas havia um que sempre voltava, sozinho ou com os camaradas, de dia, de noite, nas horas mais diferentes; colocava-se diante de mim com a garrafa e me dava aula. Ele não me compreendia, queria solucionar o enigma do meu ser. Desarrolhava devagar a garrafa e em seguida me fitava para verificar se eu havia entendido; concedo que sempre olhei para ele com uma atenção selvagem e atropelada; nenhum mestre de homem encontra em toda a volta da Terra um aprendiz de homem assim; depois que a garrafa estava desarrolhada, ele a erguia até a boca; eu a sigo com o olhar até a garganta; ele acena com a cabeça, satisfeito comigo, e coloca a garrafa nos lábios; encantado com o conhecimento gradativo, eu me coço aos guinchos de alto a baixo e de lado a lado, onde cabe coçar; ele se alegra, leva a garrafa à boca e bebe um trago; impaciente e desesperado para imitá-lo eu me sujo na jaula, o que por seu turno lhe causa grande satisfação; distanciando então a garrafa e num arremesso alçando-a outra vez, ele a esvazia de um só trago, inclinado para trás numa atitude de exagero didático. Exausto com tamanha exigência não posso mais acompanhá-lo e fico pendurado frágil na grade enquanto ele encerra a aula teórica alisando a barriga e arreganhando os dentes num sorriso. Só agora começo o exercício prático. Já não estava esgotado demais pela aula teórica? Certamente: esgotado demais. Faz parte do meu destino. Apesar disso estendo a mão o melhor que posso para pegar a garrafa que me é oferecida; desarrolho-a trêmulo; com esse sucesso se apresentam aos poucos novas forças; ergo a garrafa — quase não há diferença do modelo original; levo-a aos lábios e — com asco, com asco, embora ela esteja vazia e apenas o cheiro a encha, atiro-a com asco ao chão. Para tristeza do meu professor, para tristeza maior de mim mesmo; nem com ele nem comigo mesmo eu me reconcilio por não ter esquecido — após jogar fora a garrafa — de passar a mão com perfeição na minha barriga e de arreganhar os dentes num sorriso.

Com demasiada frequência a aula transcorria assim. E para honra do meu professor ele não ficava bravo comigo; é certo que às vezes ele segurava o cachimbo aceso junto à minha pele até começar a pegar fogo em algum ponto que eu não alcançava, mas ele mesmo o apagava depois com a sua mão boa e gigantesca; não estava bravo comigo, percebia que lutávamos do mesmo lado contra a natureza do macaco e que a parte mais pesada ficava comigo. De qualquer modo, que vitória foi tanto para ele como para mim quando então uma noite, diante de um círculo grande de espectadores — talvez fosse uma festa, tocava uma vitrola, um oficial passeava entre as pessoas —, quando nessa noite, sem ser observado, eu agarrei uma garrafa de aguardente deixada por distração diante da minha jaula, desarrolhei-a segundo as regras, sob a atenção crescente das pessoas, levei-a aos lábios e sem hesitar, sem contrair a boca, como um bebedor de cátedra, com os olhos virados, a goela transbordando, eu a esvaziei de fato e de verdade; joguei fora a garrafa não mais como um desesperado, mas como um artista; na realidade esqueci de passar a mão na barriga, mas em compensação — porque não podia fazer outra coisa, porque era impelido para isso, porque os meus sentidos rodavam — eu bradei sem mais “Alô!”, prorrompi num som humano, saltei com esse brado dentro da comunidade humana e senti, como um beijo em todo o meu corpo que pingava de suor, o eco — “Ouçam, ele fala!”. Repito: não me atraía imitar os homens; eu imitava porque procurava uma saída, por nenhum outro motivo. Com essa vitória também não se tinha feito muita coisa. A voz voltou a me falhar imediatamente; só apareceu meses depois; a aversão à garrafa veio ainda mais fortalecida. Mas fosse como fosse a direção a seguir havia sido dada de uma vez por todas.

Quando em Hamburgo fui entregue ao primeiro amestrador, reconheci logo as duas possibilidades que me estavam abertas: jardim zoológico ou teatro de variedades. Não hesitei. Disse a mim mesmo: empregue toda a energia para ir ao teatro de variedades; essa é a saída; o jardim zoológico é apenas uma nova jaula; se você for para ele, está perdido. E eu aprendi, senhores. Ah, aprende-se o que é preciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mesmo com o chicote; à menor resistência flagela-se a própria carne. A natureza do macaco escapou de mim frenética, dando cambalhotas, de tal modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um símio, teve de renunciar às aulas e precisou ser internado num sanatório. Felizmente saiu logo de lá. Mas eu consumi muitos professores, alguns até ao mesmo tempo. Quando já havia me tornado mais seguro das minhas aptidões e o público acompanhava meus progressos, começou a luzir o meu futuro: contratei pessoalmente os professores, mandei-os sentar em cinco aposentos enfileirados e aprendi com todos eles, simultaneamente, à medida que saltava de modo ininterrupto de um aposento a outro. Esses meus progressos! Essa penetração por todos os lados dos raios do saber no cérebro que despertava! Não nego: faziam-me feliz. Mas também admito: já então não os superestimava, muito menos hoje. Através de um esforço que até agora não se repetiu sobre a terra, cheguei à formação média de um europeu. Em si mesmo talvez isso não fosse nada, mas é alguma coisa, uma vez que me ajudou a sair da jaula e me propiciou essa saída especial, essa saída humana. Existe uma excelente expressão idiomática alemã: sich in die Büsche schlagen: foi o que fiz, caí fora. Eu não tinha outro caminho, sempre supondo que não era possível escolher a liberdade. Se abranjo com o olhar minha evolução e sua meta até agora, nem me queixo nem me vejo satisfeito.

As mãos nos bolsos das calças, a garrafa de vinho em cima da mesa, estou metade deitado, metade sentado na cadeira de balanço e olho pela janela. Se vem uma visita, eu a recebo como convém. Meu empresário está sentado na antessala; se toco a campainha ele vem e ouve o que tenho a dizer; à noite quase sempre há representação e tenho sucessos com certeza difíceis de superar. Se chego em casa tarde da noite, vindo de banquetes, sociedades científicas, reuniões agradáveis, está me esperando uma pequena chimpanzé semiamestrada e eu me permito passar bem com ela à maneira dos macacos. Durante o dia não quero vê-la; pois ela tem no olhar a loucura do perturbado animal amestrado; isso só eu reconheço e não consigo suportá-lo. Seja como for, no conjunto eu alcanço o que queria alcançar. Não se diga que o esforço não valeu a pena. No mais não quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir conhecimentos; faço tão somente um relatório; também aos senhores, eminentes membros da Academia, só apresentei um relatório.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Figuras de linguagem - exercícios

Pois assim como Amarildo é aquele que desapareceu das vistas, e não faz muito tempo, Cláudia é aquela que subitamente salta à vista, e ambos soam, queira-se ou não, como o verso e o reverso do mesmo. (l. 22-24)
Neste trecho, para aproximar dois casos recentemente noticiados na imprensa, o autor emprega um recurso de linguagem denominado:
(A) antítese (B) negação (C) metonímia (D) personificação

Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um certo Brasil que temos que lutar para que não se transforme no carro alegórico do Brasil. (l. 27-28)
A sequência do emprego dos artigos em “de um Brasil” e “do Brasil” representa uma relação de sentido entre as duas expressões, intimamente ligada a uma preocupação social por parte do autor do texto. Essa relação de sentido pode ser definida como:
(A) ironia (B) conclusão (C) causalidade (D) generalização

A crônica é um gênero textual que frequentemente usa uma linguagem mais informal e próxima da oralidade, pouco preocupada com a rigidez da chamada norma culta. Um exemplo claro dessa linguagem informal, presente no texto, está em:
(A) O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, (l. 1)
(B) Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, (l. 8)
(C) De repente, vejo um menino encostado num muro. (l. 10-11)
(D) ele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas. (l. 28)

CANÇÃO DO VER
Fomos rever o poste.
O mesmo poste de quando a gente brincava de pique
e de esconder.
Agora ele estava tão verdinho!
O corpo recoberto de limo e borboletas.
Eu quis filmar o abandono do poste.
O seu estar parado.
O seu não ter voz.
O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com as mãos.
Penso que a natureza o adotara em árvore.
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos1 de passarinhos
que um dia teriam cantado entre as suas folhas.
Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.
Mas o mato era mudo.
Agora o poste se inclina para o chão − como alguém
que procurasse o chão para repouso.
Tivemos saudades de nós.

Manoel de Barros Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. 5 10 15
1 arrulos − canto ou gemido de rolas e pombas

QUESTÃO 13 No poema, o poste é associado à própria vida do eu poético. Nessa associação, a imagem do poste se constrói pelo seguinte recurso da linguagem:
(A) anáfora (B) metáfora (C) sinonímia (D) hipérbole

[Anáfora é a repetição da mesma palavra ou grupo de palavras no princípio de frases ou versos consecutivos. É uma figura de linguagem muito usada nos quadrinhos populares, música e literatura em geral, especialmente na poesia.]
[Sinonímia: qualidade das palavras sinônimas; relação de sentido entre dois vocábulos que têm significação muito próxima.]

quarta-feira, 13 de abril de 2016

PROCURA DA POESIA - DRUMMOND

Procura da Poesia
Carlos Drummond de Andrade
 
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

ENEM 2015

QUESTÃO 110
Em primeiro lugar gostaria de manifestar os meus agradecimentos pela honra de vir outra vez à Galiza e conversar não só com os antigos colegas, alguns dos quais fazem parte da mesa, mas também com novos colegas, que pertencem à nova geração, em cujas mãos, com toda certeza, está também o destino do Galego na Galiza, e principalmente o destino do Galego incorporado à grande família lusófona. E, portanto, é com muito prazer que teço algumas considerações sobre o tema apresentado. Escolhi como tema como os fundadores da Academia Brasileira de Letras viam a língua portuguesa no seu tempo. Como sabem, a nossa Academia, fundada em 1897, está agora completando 110 anos, foi organizada por uma reunião de jornalistas, literatos, poetas que se reuniam na secretaria da Revista Brasileira, dirigida por um crítico literário e por um literato chamado José Veríssimo, natural do Pará, e desse entusiasmo saiu a ideia de se criar a Academia Brasileira, depois anexada ao seu título: Academia Brasileira de Letras. Nesse sentido, Machado de Assis, que foi o primeiro presidente desde a sua inauguração até a data de sua morte, em 1908, imaginava que a nossa Academia deveria ser uma academia de Letras, portanto, de literatos. 

BECHARA, E. Disponível em: www.academiagalega.org. Acesso em: 31 jul. 2012. No trecho da palestra proferida por Evanildo Bechara.

O uso de estruturas gramaticais típicas da norma padrão da língua. Esse uso
A torna a fala inacessível aos não especialistas no assunto abordado.
B contribui para a clareza e a organização da fala no nível de formalidade esperado para a situação.
C atribui à palestra características linguísticas restritas à modalidade escrita da língua portuguesa.
D Dificulta a compreensão do auditório para preservar o caráter rebuscado da fala.
E evidencia distanciamento entre o palestrante e o auditório para atender os objetivos do gênero palestra.



QUESTÃO 115
Ai se sêsse
Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém se acontecesse
De São Pedro não abrisse
A porta do céu e fosse
Te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse
Pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caísse
E o céu furado arriasse
E as virgi toda fugisse

ZÉ DA LUZ. Cordel do Fogo Encantado. Recife: Álbum de estúdio, 2001. 

O poema foi construído com formas do português não padrão. Essas formas legitimam-se na construção do texto, pois

A revelam o bom humor do eu lírico do poema.
B estão presentes na língua e na identidade popular.
C revelam as escolhas de um poeta não escolarizado.
D tornam a leitura fácil de entender para a maioria dos brasileiros.
E compõem um conjunto de estruturas linguísticas inovadoras. 

Latuff x Trump

 

Carlos Latuff
Fonte: https://latuffcartoons.wordpress.com/2015/10/19/syria-refugees-tragedy-cartoons-via-operamundi-and-middleeasteye/




Fonte:

https://twitter.com/realDonaldTrump/status/718269255872081922?ref_src=twsrc%5Etfw

Os golpeados - Ana Paula Lisboa

Os golpeados
Na favela, diferentemente de outras áreas da cidade, a polícia tem aval para matar


Uma das coisas mais bonitas que ouvi desde que comecei a ocupar esse lugar de escrevente foi: “Ana, depois de ler sua coluna eu fico feliz”. Desta vez não pretendo que seja assim. Espero que, ao terminar a leitura do texto desta quarta, ninguém esteja feliz.

O possível impeachment da presidenta Dilma tomou todos os meios de comunicação nos últimos meses e “não há outro assunto”, como bem relatou minha companheira de coluna Maria Ribeiro. Maria explicou melhor do que eu poderia que existe, sim, um país dividido, mas não politicamente.

Minha teoria sobre o porquê de a maioria absoluta dos manifestantes — de esquerda e de direita — ter curso superior é bem simples. “Os outros” têm uma coisa muito mais importante a fazer que bater panelas ou balançar bandeiras vermelhas: lutar pela vida. Aqui falo da vida no seu sentido mais primitivo: aquela coisa a que supostamente todo mundo tem direito.

Só faz dois anos que me dei conta da morte. A mulher mais velha da minha família, Tia Maria, está firme e forte com seus 98 anos. E o fato de eu vir de um lugar com muitos nascimentos e poucos enterros não me preparou.

Imagine meu susto ao ler os dados divulgados na campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional, e descobrir que “o Brasil é o país onde mais se mata no mundo, superando muitos países em situação de guerra. Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas. Destas, 30.000 são jovens entre 15 e 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticada por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados”.

Há algumas semanas, eu estava balançando alegremente minha bandeira vermelha na janela, gritando nas ruas. Podia ter esquecido as estatísticas por um momento, mas é difícil esquecer que vários dos que estão na Comissão do Impeachment são os que pregam contra a descriminalização do aborto, “pelo direito à vida”, e os mesmos que fazem coro de que bandido bom é bandido morto.

Até que novos corpos caíram: Cidade de Deus, Manguinhos, Mangueira, Jacarezinho, Acari.

E mais agudas que as estatísticas são as vozes. Já ouviu a voz de uma mãe embargada contando sobre o assassinato do filho? Mães não deveriam enterrar seus filhos. As mães pretas, menos ainda.

“As notícias que chegam direto do campo de extermínio dão conta de pelo menos mais três mortos”, postou um amigo. As mídias sociais têm cumprido o papel da visibilidade, da outra versão da história contada nos jornais do meio-dia. É que tráfico de drogas é punido com pena de morte no Brasil, sabia? Favelados não vão pra rua gritar se vai ou não ter golpe porque estamos sendo golpeados desde sempre, sabia?

Cinco pessoas foram mortas numa operação policial na favela de Acari no último dia 4. Segundo a Polícia Federal, a intenção era cumprir um mandado de prisão — que não foi cumprido. Só que, ainda assim, a operação foi tida como “bem-sucedida”. Bem perto dali, na Pavuna, há apenas seis meses cinco jovens foram mortos, fuzilados dentro de um carro, você se lembra? Eu me lembro de dormir mal naquela noite e de acender uma vela pelas almas dos jovens. Porque, mesmo sem ter religião, eu acho que deve ser difícil morrer — tanto quanto viver —, ainda mais quando se é jovem.

A polícia é treinada para combater o inimigo, para matá-lo. Preparada para a guerra, a conquista de territórios e a repressão. Mas é importante ressaltar que toda essa preparação não é posta em prática em qualquer lugar, com qualquer “cidadão”. Na favela, diferentemente de outras áreas da cidade, a polícia tem aval para matar, sabia? Mas quem deu esse aval? A certeza da impunidade, o sistema de Segurança Pública e, principalmente, nós. Nós, sociedade, que, segundo a Sociologia, é aquele conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade.

Seja quem for que governe este país a partir do mês de maio precisa trazer para a pauta a reforma da polícia. E cabe a nós, sociedade, cobrar por uma política de segurança pautada não na guerra às drogas, mas na proteção da cidadania: a minha, a sua e a do policial.

Até lá, é preciso desnaturalizar as mortes, a violência, a violação de direitos, romper o silêncio e a indiferença seletiva.

No ano passado, eu estava nos Estados Unidos na época da onda de manifestações, quando mais um jovem negro foi assassinado pela polícia de lá. Vi o noticiário orgulhosa das pessoas nas ruas e acompanhava outros brasileiros também orgulhosos da comunidade negra americana. Mas, quando uma comunidade de Madureira resolveu queimar ônibus do BRT em protesto contra a morte de uma criança, vi os mesmos “Je suis Baltimore” chamarem os manifestantes de vândalos.

Quando meu irmão foi assassinado pela polícia em 12 de fevereiro de 2014 (mesma data em que eu faria 19 anos), queimaram ônibus na Rua Barão do Bom Retiro, no Engenho Novo. Ninguém da minha família participou: estávamos todos sentados numa escada, revezando choro e silêncio, impedindo que a polícia mexesse no local, enquanto esperávamos o IML e a perícia chegarem. Não fomos nós, mas uma comunidade indignada com a covardia.

Eu espero você não esteja feliz. Mas que, como eu e tantas outras famílias, transforme a infelicidade não em ódio ou rancor, mas em luta.


Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/os-golpeados-19071672

Ana Paula é coordenadora de metodologia da Agência de Redes para Juventude, programa que proporciona ferramentas para jovens da periferia desenvolverem projetos em benefício de suas regiões. É também poeta e escritora. Mantém um blog de poesia e teve textos publicados em coletâneas editadas pela Festa Literária das Periferias (Flupp) e no volume de crônicas “O meu lugar” (2015), organizado por Luiz Antonio Simas e Marcelo Moutinho. Além disso, é colaboradora da revista eletrônica feminista “As minas”.


O procedimento do terror - JP Cuenca

Acaba de sair pela editora argentina Eterna Cadência, "Las tres vanguardias. Saer, Puig, Walsh". O livro traz a transcrição das conferências que Ricardo Piglia deu na Universidade de Buenos Aires em 1990. Ele usa os três escritores como pedra de toque para discutir o romance literário contemporâneo e sua relação com o leitor, a política –e o Estado.

O jornal "La Nacion" adiantou um trecho do livro, justamente o que trata das ideias de Piglia sobre o Estado como construtor de ficções. Se um dos níveis fundamentais da relação social é a narração –estamos todos tecendo narrativas o tempo inteiro, é uma obrigação social–, o escritor chama de "narrativa pública" ao relato coletivo cristalizado. E propõe a hipótese de que o Estado sempre irá engendrar uma ficção tentando concentrar essa narrativa.

No Brasil de 2016, tal ficção do Estado é dramaticamente contraposta a outras, traçadas por agentes que querem "ser" Estado no momento seguinte. O Estado seria, portanto, o sol em torno do qual orbita essa trama aparentemente infindável de narrativas contraditórias.

Piglia cita Paul Valéry, na "Política do espírito": "A era da ordem é o império da ficção. Nenhum poder é capaz de sustentar-se apenas com a opressão do corpo a corpo. São necessárias forças fictícias." E junta ao caldo as ideias da "Teoria do romance" onde Lukáks define o gênero literário como a unidade impossível entre dois mundos irreconciliáveis –o possível e o utópico, o real e o ilusório, a vida e o sentido.

O herói do romance, portanto, seria o sujeito insatisfeito que está no meio, tentando passar de um lado ao outro e sempre fracassando.

[...]

Continua aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopaulocuenca/2016/04/1759893-o-procedimento-do-terror.shtml

domingo, 27 de março de 2016

Aula de história - Dorrit Harazim

Aula de história

É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma

Desde que se instalou na Casa Branca em janeiro de 2009, o presidente Barack Obama evita levar as filhas Malia e Sasha, hoje adolescentes de 17 e 14 anos, em suas viagens oficiais mundo afora. Abriu exceção para a visita desta semana a Cuba e à Argentina por dois motivos.

Primeiro, ela coincide com o recesso de primavera do ano letivo americano, portanto, as meninas não perderiam aulas. Segundo e sobretudo, o roteiro serviria de valiosa aula de história para as adolescentes, nos moldes da impactante visita à Africa do Sul de Nelson Mandela ocorrida três anos atrás.

Para Obama, que já estivera em Robben Island anteriormente, levar as filhas à cela número 5, onde o líder anti-apartheid esteve confinado por 18 anos, foi imperativo. “Eu sabia que seria uma experiência profunda. Elas começaram a compreender a força do espírito de liberdade de tantos que ali ficaram presos e não se dobraram”, comentou depois com estudantes da Universidade da Cidade do Cabo.

Em Cuba, as meninas terão presenciado um naco de história, ao vivo, à qual só darão o devido peso mais adiante na vida. Talvez nem tenham percebido a força e tato com que o pai, comunicador nato de 54 anos, ajudou o líder comunista Raúl Castro, de 84, a sobreviver à sua primeira entrevista coletiva de estilo brutalmente democrático. “Obrigado”, disse-lhe o visitante ao final, bem baixinho, ciente da indigesta provação pela qual passara o anfitrião.

É provável que, se Malia ou Sasha voltarem a pisar em Havana dentro de alguns anos, Cuba já não será a mesma, pois a engrenagem de reaproximação entre os dois países colocada em marcha pelo pai não tem volta. Qual novo país e sociedade disso resultará as filhas haverão de acompanhar com interesse, orgulho, curiosidade e talvez afeto especial.

Mas o caso do longo ostracismo imposto pelos Estados Unidos a Cuba foi tão singular e neurastênico que não serve de exemplo para nada. O breve contato com a história da Argentina, ao contrário, pode ter sido didático para as meninas. Lição dura, realista e oportuna porque a ingerência dos EUA na política daquele país corre o risco de ser repetida por futuros ocupantes da Casa Branca em outras partes do mundo — basta ouvir o que dizem em seus discursos de campanha os atuais candidatos republicanos à sucessão de Obama.

Até hoje, 43% dos argentinos têm opinião desfavorável sobre os EUA — o maior índice de rejeição entre os países das Américas ouvidos pelo Centro de Pesquisa Pew, de Washington. Entre eles está o Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, que publicou uma carta aberta a Obama instando-o a adiar sua viagem desta semana, por considerá-la um gesto de provocação.

Isso porque a visita oficial de dois dias coincidiu com uma das datas mais traumáticas da história do país: o 40 º aniversário do golpe militar de 24 de março de 1976, que deu início à chamada “Guerra Suja”, incentivada pelo governo americano da época. Foram sete anos de assassinatos premeditados e sistemáticos, resultando em cerca de 13 mil mortes/desaparecimentos, segundo estimativas oficiais, ou perto de 30 mil, segundo grupos de direitos humanos.

São incontáveis as feridas ainda não cicatrizadas no país, e Obama optou por encará-las. “Sei que existem polêmicas sobre a política dos Estados Unidos naqueles dias sombrios. As democracias devem saber reconhecer quando não cumprem os ideais que defendem, quando tardam em defender os direitos humanos, e foi o [nosso] caso na Argentina... Temos a responsabilidade de enfrentar o passado com honestidade e transparência”, discursou no Parque de La Memória, memorial erguido sobre o Rio da Prata em homenagem aos mortos da ditadura.

Não foram palavras apenas. Junto, ele fez o anúncio mais precioso para vítimas, pesquisadores e cidadãos comuns com direito à história do seu país: o governo Obama vai tornar públicos, pela primeira vez, uma montanha de documentos secretos de FBI, CIA, Departamento de Defesa e outras agências de inteligência relacionadas à ditadura argentina.

Um primeiro lote de 4.700 documentos já havia sido liberado em 2002, porém referia-se apenas a material cedido pelo Departamento de Estado. Mesmo esses já são bastante comprometedores para Henry Kissinger, à época secretário de Estado do governo Gerald Ford.

Dois dias após o golpe, por exemplo, William Rogers, seu secretário-assistente para a América Latina, alertou-o para o fato de que os generais fariam “um esforço considerável para envolver os EUA”. Kissinger , segundo o memorando, responde “Sim, mas é do nosso interesse”. Rogers recomenda que “por ora não devemos nos apressar em abraçar esse novo regime” porque “devemos prever uma repressão de grande porte, provavelmente com grande derramamento de sangue”. Ainda assim, Kissinger deixa clara a sua preferência: “...Eles vão precisar de um pouco de encorajamento… quero encorajá-los”.

Em outro memorando, Kissinger dá um conselho cirúrgico ao chanceler argentino César Guzzetti: “Se há coisas por fazer, que sejam feitas rapidamente. Mas vocês devem voltar a procedimentos normais rapidamente… Queremos que vocês tenham êxito…”

Os documentos agora liberados podem conter informações críticas para avaliar melhor o que os EUA sabiam, quem e quando souberam e o quanto ajudaram a ditadura mais repressiva da América Latina.

Mas Obama poderá contar às filhas o capítulo seguinte, mais virtuoso, e ilustrar que, para fazer história, basta querer. Nove meses depois do golpe argentino, assumiu a Casa Branca o democrata Jimmy Carter, sulista tido como caipira e despreparado. Pois deve-se a ele, exclusivamente, o desmonte do apoio a qualquer ditadura e a persistente implantação de uma politica de defesa de direitos humanos.

O primeiro encontro de sua enviada, Patricia Derian, com o almirante Emilio Massera, um dos algozes mais ferozes do regime argentino, ocorreu na Escola Naval de Buenos Aires, centro de detenção onde estima-se que cinco mil pessoas foram mortas. “É possível que, enquanto conversamos, pessoas estejam sendo torturadas aqui?”, foi a pergunta inicial de Derian.

Malia e Sasha tiveram do que se orgulhar também na Argentina.

Dorrit Harazim é jornalista

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/aula-de-historia-18960689

quinta-feira, 24 de março de 2016

Narciso



Liniers: http://www.porliniers.com/



Caravaggio: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caravaggio

"Sampa", de Caetano Veloso:

"[...]Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio
o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda
Não é mesmo velho
Nada do que não era antes
quando não somos mutantes[...]"



Questões:

Nos três casos, a figura mitológica do imaginário greco-romano de Narciso é evocada. Com base nisso, responda às seguintes questões:

1/ O cartunista argentino Liniers se inspirou no mestrre do barroco italiano Caravaggio. Explique a diferença entre as duas imagens.
2/ Do que exatamente o eu-lírico da música de Caetano Veloso aparentemente não gostou de primeira? Por quê?
3/ Com base nessas três expressões textuais, seria possível explicar qual é a moral do mito de Narciso? Se sim, em qual dos três casos o mito é mais próximo do seu relato original? Por quê?

Laerte



Sobre Laerte: http://www2.uol.com.br/laerte/

Somos todos imbecis - Pasquale Cipro Neto

Somos todos imbecis - Pasquale Cipro Neto

Pela enésima vez neste espaço, recorro a Paulo Freire: "A leitura do mundo precede a leitura da palavra". Permito-me, mais uma vez, explicar aos que não entendem: quem não compreende o mundo, a realidade e as suas correlações não entende a palavra, o (con)texto etc.

A vida é um complexo e interminável texto, caro leitor. Às vezes, julgamo-nos capazes de entender ao menos os textos mais comezinhos, embora isso seja extremamente difícil ou mesmo impossível para a parcela imbecil da humanidade.

Como diz Leonardo Sakamoto, faltam amor e compreensão de texto. Quando se leem os comentários dos "internautas" sobre determinados textos, nota-se que o analfabetismo funcional, aliado ao ódio, ao preconceito, à ignorância, à falta de sensibilidade, de cultura, de educação gera manifestações dignas de pena, nojo, desprezo etc., etc., etc.

Do alto da sua grande sabedoria, o eterno Umberto Eco dizia que a internet deu voz aos imbecis, o que é fato cabal, mais do que cabal. Que eu saiba, Eco não chegava a dizer que os imbecis são majoritários.

Exemplifiquemos a compreensão torta: em suas delações, Delcídio diz que o PT isso, o PT aquilo, e automaticamente isso se torna "verdade". Quando ele diz que o PSDB isso, o PSDB aquilo, o barulho e o ódio não são os mesmos, e nada disso vira "verdade" imediatamente.

Se você ler o que acabei de dizer como uma defesa do indefensável PT, sugiro que volte aos bancos escolares e reaprenda o beabá da leitura. Desenho, para quem entendeu tortamente: uma delação, seja contra quem for, carece de comprovação, nada mais do que isso.

Mas agora a questão é outra. Um ponto é manifestarmos a nossa imbecilidade por avaliarmos como o Diabo gosta textos que não têm (nem de longe) o sentido que neles enxergamos, por ignorância, ódio, miopia intelectual, moral, ética.

Outro ponto é estarmos no pleno domínio das nossas faculdades mentais e também da capacidade de compreensão dos fatos e das suas correlações e alguém tentar nos convencer de que a nossa compreensão do texto (isto é, dos fatos) não é correta, verdadeira, pertinente etc.

Aí é o caso de inverter a proporção do que dizia o grande Umberto Eco, se é que ele não julgava majoritários os imbecis: no Brasil de hoje, nós, os imbecis, somos majoritários.

O melhor exemplo disso tudo é o que tem feito o "governo" nas suas desesperadas tentativas de sobreviver. Os imbecis não conseguimos compreender a real intenção da nomeação de Lula para a Casa Civil, por exemplo, o que prova e comprova que somos todos imbecis. Também não compreendemos a real intenção de Dilma no telefonema para Lula.

Os imbecis não conseguimos compreender também que nunca antes neste país houve roubalheira, ou seja, a roubalheira começou com o PT. Não conseguimos compreender, por exemplo, que, antes do PT, as empreiteiras investigadas na Lava Jato eram verdadeiros monastérios, desde a imaculada ditadura militar, recheada de santos, bravos e indefessos defensores da pátria.

Tomo emprestados uns versos da letra da genial e atualíssima "Saudosismo", de Caetano Veloso: "Eu, você, depois, Quarta-feira de Cinzas no país, e as notas dissonantes se integraram aos sons dos imbecis". É, caríssimo Umberto Eco, siamo veramente tutti imbecilli.

E eu já tô de saco cheio. É isso.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/2016/03/1750845-somos-todos-imbecis.shtml?cmpid=compfb

Crônica “Lixo”, L F Verissimo

O lixo  - Luís Fernando Verissimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tin ha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=7243

quinta-feira, 17 de março de 2016

Liberdade de expressão

- Liberdade de expressão, a definição constitucional
http://observatoriodaimprensa.com.br/caderno-da-cidadania/liberdade-de-expressao-a-definicao-constitucional/

- Há limites para a liberdade de expressão?
http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/ha-limites-para-a-liberdade-de-expressao.jhtm

- Os limites da liberdade de expressão
http://www.investidura.com.br/ufsc/113-direito-constitucional/3855-os-limites-da-liberdade-de-expressao.html

- A abordagem constitucional da liberdade de expressão
http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/8017/A-abordagem-constitucional-da-liberdade-de-expressao

- Constituição Federal
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm

Aula dia 23 / 03 / 2016

- Íntegra das conversas de Lula reveladas na Lava Jato
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1750807-ouca-a-integra-das-conversas-de-lula-reveladas-na-lava-jato.shtml

- Quebra de sigilo de Sérgio Moro é questionada por juristas: entenda
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/17/politica/1458183598_880206.html

- Ex-procurador-geral da República diz que 'imprensa é seletiva' e recomenda 'cautela' ao MP
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160316_entrevista_claudio_fonteles_ms_rm

- Operação que inspirou Lava Jato foi fracasso e criou corruptos mais sofisticados, diz pesquisador
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160316_lavajato_dois_anos_entrevista_lab

- Envio de termo a Lula é “abuso de poder” de Dilma, avaliam juristas
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/17/politica/1458190255_022641.html

sexta-feira, 11 de março de 2016

AULA LÍNGUA PORTUGUESA 16/03/2016 - parte 2

BERLUSCONIZAÇÃO DA POLÍTICA
Corrupção, espetáculo, manipulação do sistema eleitoral e outros ingredientes da crise democrática na Europa
por PERRY ANDERSON

[...] Um afresco sobre o tema poderia começar com Helmut Kohl, governante da Alemanha por dezesseis anos, que acumulou um caixa dois de campanha de cerca de 2 milhões de marcos alemães [cerca de 3 milhões de reais]. Quando o caso foi descoberto, ele não quis revelar os nomes dos doadores, com medo de que viessem à luz os favores que eles receberam em troca. Jacques Chirac, presidente da República francesa durante doze anos, foi condenado por desvio de dinheiro público, abuso do cargo e conflito de interesses, depois que perdeu sua imunidade. Nenhum deles sofreu punição. Eram os políticos mais poderosos da Europa em sua época. Uma olhada no que ocorreu desde então é suficiente para desfazer qualquer ilusão de que se trata de casos isolados.

Na Alemanha, o governo de Gerhard Schröder garantiu um empréstimo de 1 bilhão de euros à companhia russa Gazprom para a construção de um oleoduto, poucas semanas antes de o chanceler deixar o cargo e entrar na folha de pagamento da empresa com um salário superior ao que recebia para governar o país. Desde que ele saiu, Angela Merkel viu dois sucessivos presidentes da República serem obrigados a renunciar: Horst Köhler, antigo chefe do Fundo Monetário Internacional, por haver explicado que o contingente militar alemão no Afeganistão estava protegendo interesses comerciais do país; e Christian Wulff, antigo chefe democrata-cristão na Baixa Saxônia, em razão de um empréstimo duvidoso para sua casa feito por um empresário amigo. Dois importantes ministros, um da Defesa, a outra da Educação, tiveram que deixar o cargo ao terem os títulos de doutor cassados por furto intelectual. Quando esta última, Annette Schavan, amiga íntima de Merkel (que manifestou plena confiança nela), ainda se agarrava ao cargo, o tabloideBild comentou que ter uma ministra da Educação que frauda pesquisas era como ter um ministro das Finanças com uma conta bancária secreta na Suíça.

Dito e feito. Na França, descobriu-se que o ministro socialista do Orçamento, o cirurgião plástico Jérôme Cahuzac, tinha de 600 mil a 15 milhões de euros em depósitos secretos na Suíça e em Cingapura. Nicolas Sarkozy, enquanto isso, é acusado por testemunhas de ter recebido cerca de 50 milhões de euros do líbio Muammar Kadafi para a campanha eleitoral que o conduziu à Presidência. Christine Lagarde, sua ministra das Finanças, agora na chefia do FMI, está sendo investigada por seu papel na concessão de 420 milhões de euros em “compensação” para Bernard Tapie, conhecido trapaceiro com antecedentes penais e, nos últimos tempos, amigo de Sarkozy. A contiguidade descuidada com o crime é bipartidária. O socialista François Hollande, atual presidente da República, ia na garupa de uma moto para seus encontros com a amante no apartamento de uma prostituta ligada a um gângster corso morto num tiroteio na ilha.

Na Grã-Bretanha, mais ou menos na mesma época, o ex-primeiro-ministro Tony Blair dava conselhos a Rebekah Brooks, ex-braço direito do magnata da mídia Rupert Murdoch, que corria o risco de ir para a cadeia por cinco acusações de conspiração criminosa relacionadas à época em que dirigia o extinto tabloide News of the World. “Tenha à mão comprimidos para dormir. Isto vai passar. Seja forte”, disse Blair a Rebekah, recomendando-lhe ainda que abrisse uma investigação “independente” sobre o caso como ele mesmo tinha feito para isentar seu governo de qualquer participação na morte de David Kelly, o cientista britânico e inspetor da ONU no Iraque que questionara as razões alegadas para a invasão do país árabe, uma invasão que renderia a Blair – para a sua Faith Foundation, é claro – uma profusão de gorjetas e negócios no mundo inteiro, com destaque para doações de uma empresa petrolífera sul-coreana, presidida por um criminoso condenado com interesses no Iraque, e da dinastia feudal do Kuwait.

Na Espanha, o atual primeiro-ministro, Mariano Rajoy, à frente de um governo de direita, foi flagrado recebendo propinas em obras públicas e outros negócios, no valor total de 250 mil euros ao longo de uma década, que lhe foram repassados por Luis Bárcenas. Tesoureiro do Partido Popular durante vinte anos, Bárcenas está preso por amealhar 48 milhões de euros em contas não declaradas na Suíça. Fotocópias dos livros de contabilidade com registros à mão de suas transferências para Rajoy e outras figuras do partido – como Rodrigo Rato, outro ex-diretor do FMI – circularam na imprensa espanhola. Quando estourou o escândalo, Rajoy passou uma mensagem de texto para Bárcenas com palavras praticamente idênticas às de Blair para Rebekah Brooks: “Luis, eu compreendo. Seja forte. Ligo amanhã. Um abraço.” Oitenta e cinco por cento da opinião pública espanhola acham que Rajoy está mentindo, mas ele continua firme no Palácio da Moncloa.
Na Grécia, o social-democrata Akis Tsochatzopoulos, sucessivamente ministro do Interior, da Defesa e do Desenvolvimento, teve menos sorte: foi condenado a vinte anos de prisão por uma formidável carreira de extorsões e lavagem de dinheiro. Do outro lado do mar Egeu, o premiê turco Tayyip Erdogan – que a mídia e o establishment intelectual da Europa costumavam louvar como o maior estadista democrata da Turquia, cuja conduta praticamente conquistou para o país a filiação honorária à União Europeia – mostrou que é digno de figurar nas fileiras dos dirigentes da ue por outras razões: numa conversa gravada, instruía o filho sobre onde esconder 10 milhões em espécie; noutra, elevava o preço de um suborno num contrato de construção. Três membros do seu gabinete foram derrubados por revelações parecidas, antes que Erdogan fizesse um expurgo na polícia e no Judiciário, para impedir que o assunto fosse adiante.
Enquanto ele fazia isso, a Comissão Europeia divulgou seu primeiro relatório oficial sobre corrupção na ue, cujas dimensões foram descritas como “assombrosas” pelo comissário que redigiu o documento: numa estimativa por baixo, a corrupção custa o equivalente a todo o orçamento do bloco, cerca de 120 bilhões de euros por ano. Prudentemente, o relatório cobria apenas países-membros. A Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, com sede em Bruxelas, foi excluída.

http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/berlusconizacao-da-politica/

AULA LÍNGUA PORTUGUESA 16/03/2016

Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. 

Brás Cubas.

Fonte: http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf

Vocabulário:
Nimiamente: de maneira superabundante.
Piparote: peteleco.